segunda-feira, novembro 30, 2009

Direito à vista (da janela e não só)

Li a semana passada uma crónica na Visão sobre um assunto que me toca particularmente: as janelas e a sua vista.
Lembrava o jornalista que, no século XIX, nalguns países cobravam impostos sobre as janelas - quem tinha direito a ver devia pagar por isso. Hoje parece-nos extraordinário, mas a nível mais suave a coisa ainda tem alguns sinais: uma casa vale mais ou menos de acordo com o andar onde se situa, ou seja segundo a vista que o apartamento tem. É um factor de valorização que os vendedores muito bem explicam, isso de a casa «ter vista».
Mas, se podemos protestar depois por os canos funcionarem mal, ou as paredes terem rachas, esse factor da vista não é controlável – quem tem um terreno à frente pode decidir fazer uma construção que tape essa vista e lá se vai o nosso prazer mas o dono está no seu direito.
E estará? Até que limite?
Quando disse que esta questão me toca é mesmo verdade. A casita para onde vim estes dias fica numa aldeia de 'paisagem protegida'. Quando comecei a vir para cá, há muitos anos, aqui mesmo à frente existia apenas uma casinha encantadora com um belo quintal à volta. De um só piso e pequenina, lembrava-me a casinha onde vivia a Branca de Neve e os Anões. Bem, o tempo passou, essa casa de brinquedo foi demolida e em seu lugar construíram duas casas grandes ocupando quase todo o terreno, casas com dois pisos e um tanto pesadas mas, apesar disso, eu mantinha a vista da paisagem ao longe, ao pé é que era menos bonito. Paciência. Contudo, no terreno ao lado, onde havia um palheiro começou um dia a levantar-se uma construção. Fiquei primeiro curiosa porque o espaço era tão pequeno que nem percebia o que iam lá fazer. Mas a construção começou a subir e eu a assustar-me, acabando por entrar em pânico quando vi que estava a nascer ali uma torre. Quatro pisos (!!!) numa rua tão estreitinha onde nem um carro pode passar! E, como já adivinham, essa torre tapa a vista de grande parte das janelas da minha casa. Depois, para cúmulo, por algum motivo a obra foi embargada e ficou assim por acabar e a degradar-se há mais de 15 anos. Grrrrrr!
É claro que este é um caso pessoal. Mas, para além disso, esta zona de paisagens lindíssimas, como é bastante inclinada tem estradas que são uma delícia do ponto de vista da paisagem que vai desfilando. Tem estradas, quero dizer, tinha.
Agora circulamos parte do caminho emparedados entre muros altos sem ver nada para os lados. Cada vez mais os donos das propriedades que dão para a estrada constroem muros, não aqueles murozinhos de meio metro que se usavam dantes a separar o domínio público do privado, mas muros bem altos de dois metros que tiram o prazer de circular naquelas estradas. É legal, calculo. Mas é justo?...


15 comentários:

josé palmeiro disse...

O que contas, é real.
O pior é que as casas, só são valorizadas pelas "vistas", para a aquisição, porque para vender, os itens que sobresaiem são as rachas e o incómodo que é viver, tão "alto".
No teu caso, tens o azar de ter, à tua frente, duas casas, "Tipo Sócrates" e ao lado a tentativa de construção de uma torre, o que em àrea protegida é, ou deveria ser, impossível. De qualquer forma, quinze anos em esqueleto, já é demais e deveria ser deitado abaixo, pois é inconpreensível, esse estado. Mas, como estamos por cá, tudo é possível!

kika disse...

Muita sorte , que o tribunal de contas anda a cancelar a construção de auto-estradas senão ainda te passavam ao lado..HIHIHI!!
Essa história que é a tua realidade é muito comum!
Eu que moro num sexto andar, já levei com um predio á frente que me tirou quase as vistas do mar,mas ainda tenho uma nesgazita!
Portugal é muito desordenado, cada um constroi e pinta como lhe apetece .Tirando os centros históricos, é uma anarquia de construção.
Mas enfim,acho que os robalos circulam muito por essas áreas!

mary disse...

Bem visto. Bem visto as duas coisas. A vista das nossas janelas é de facto um bem perecível... :) É aproveitar enquanto há. Mas também me anda a chatear alguns belos passeios que costumávamos dar e agora temos de caminhar até um miradouro para se ver alguma coisa. O passear calmamente pelas estradas apreciando a paisagem está a ficar cada vez mais difícil.

Joaninha disse...

É isso mesmo.
Pegando no que disse a Mary e de que também me queixo, não entendo bem porque é que se fazem esses muros tão altos ao lado das estradas. Aceito que se façam a circundar uma casa para guardar a privacidade (mas até isso fica feio, parece que se vive num bunker...) agora quando são terrenos, o que é que se quer esconder?!

Joaninha disse...

Ah, quanto à tua história pessoal, olha menina a minha grande solidariedade. E não os podes exterminar? Uma bomba aí no mono?...

Maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria disse...

Como eu te compreendo, Emiéle, eu quanto adquiri a minha casa, há 16 anos, fui logo seduzida pelas belíssimas vistas , Frontal e lateral - mar e serra - dois anos depois perdi a "lateral";))
O melhor será, agora, antes de ser cnstruir ou comprar uma casa, consultar o "Plano directório municipal"(PDM)e ainda assim podemos ter surpresas...
O lugar do meu refúgio, também, é zona protegida - últimamente verifica-se algum cuidado e cumprimento, tirando o uso dos alumínios que poderiam ser mais bem escolhidos...Por lá os muros nas propriedades não prejudicam as vistas mas ainda assim são poucos e se porventura aparecem tem haver com a necessidade, cada vez maior, de se protegerem dos roubos ou devassa da propriedade. Tenho um muro baixo no meu terreno - plantei sebe - solução mais económica e bonita, a meu ver, entretanto enquanto a sebe não tem a altura suficiente , não são poucas as vezes que encontro o terreno cheio de lixo é muito desagradável.
Quanto à obra embargada do teu lado, provavelmente, irei dizer o que já terás feito - consultar a autarquia - segundo sei ao fim de tanto tempo a assunto já deveria estar resolvido - temos que os pressionar...

sem-nick disse...

Já me aconteceu, isso tale qual. Arranjar casa seduzido pelas vistas e algum tempo depois elas desaparecerem completamente e ficarmos quase emparedados. Como dizes, os donos do terreno estão no seu direito de construir as suas casas mas... também não gostariam que lhes fizessem o mesmo, não é? Muitas vezes há uma completa falta de respeito, porque com bom senso conseguiam fazer a sua construção e respeitarem os outros.

King disse...

Muros.
É uma questão que nunca se resolve essa dos muros entre as pessoas. E cada vez há mais!
O tema de hoje daria pano para mangas se fôssemos para o campo metafórico :)
Estou com a Maria, para mim também o que acho mais simpático para fazer divisórias inevitáveis, são as sebes. É bonito, é uma coisa 'viva', marca a divisão sem agredir. Se tivesse uma casa tipo vivenda é o que faria.
...........
Quanto ao teu «problema pessoal» acho uma coisa incrível. De certeza que essa 'coisa' não tem licença como deve ser, é impossível deixarem construir uma casa com 4 pisos numa rua estreitinha, tão estreita que nem dá para circular um carro! Tens mesmo de fazer queixa, como disse a Maria.

estrela-do-mar disse...

Para mim uma vista desafogada também é importantíssimo.
Tenho uns amigos que construíram a sua casa, de raiz, num terreno dentro de um pinhal.
É sossegado e agradável, mas faz-me alguma impressão. De qualquer das janelas só se vê pinheiros à volta, o que não é nada mau - até muito bom para quem vive num apartamento como eu - mas podendo escolher como foi o caso deles, não seria ali que ia construir a minha casa.
Realmente quando se compra uma casa temos a ilusão de também comprar o sítio, mas infelizmente não é assim.

estrela-do-mar disse...

Quanto ás estradas muradas, sei bem o que dizes. Também costumava dar uns passeios, quer de carro quer a pé, e ultimamente tenho desistido, exactamente por isso. Perdeu a graça toda!

King disse...

O Zé Palmeiro tem toda a razão. Os senhores das imobiliárias têm duas medidas: quando é para vender essa coisa da casa ter vista é importantíssimo e cobram por tal; quando é para comprar, torcem o nariz, de pfff... o que interessa são os metros quadrados e o estado do apartamento.
O bom é vender de particular a particular. Afinal como com os carros.

Miguel disse...

Achei um piadão ao teu post Emiéle. Não fazia a mínima ideia que se chegou a pagar imposto para ter vistas! LOL!

Quanto ao que descreves, é uma tristeza. Portugal, de Sagres a Caminha, foi tomado de assalto pelos bárbaros que destruíram o país em termos urbanísticos. O dinheiro falou mais alto e foi um ver se te avias. Temos uma pesada herança que levará largas décadas a ser "destruída". Pior, só me lembro da Turquia, nomeadamente Istambul.

Aqui passa-se um caso fantástico. Mesmo em frente ao Jornal de Angola, na Rainha Ginga, baixa de Luanda, construíram uma torre magnífica a que deram o nome de Tour Eiffel. Um edifício moderno, com uma vista brutal para a baía de Luanda, etc e tal... O que não se sabia, digo eu, daí que os preços tenham caído brutalmente, é que iam construir uma torre exactamente igual mesmo ao lado a escassos metros de distância. Ou seja, o edifício original tem janelas nos 4 lados do edifício e um desses lados terá agora mesmo em frente o vizinho.

Resumindo, não há respeito!

Olha outra... lol. O meu pai tem uma vivenda porreira num condomínio na Ericeira. Uma vista espectacular para o mar. Como o condomínio foi construído numa encosta, todos os moradores têm uma vista simpática e sol qb. Então não é que um vizinho da rua mais abaixo decidiu ampliar a casa em altura?! Destoando das demais e tirando a vista ao vizinho da rua de cima?! Mas, isto é normal?!

Emiele disse...

Zé Palmeiro, as granditas que estão à minha frente não serão exactamente «tipo Sócrates» :) afinal eu só embirro porque vieram substituir a outra pequenina e engraçada. O monstro é mesmo, e só, a torre que está ao lado delas… E tens razão, essa da vista só funciona para quem compra, para quem vende já é outra coisa …
Kika, mas o esquisito é que isto é paisagem protegida, e por vezes os fiscais vêm marrar com coisas parvas como por exemplo a cor da barra junto ao chão que só pode ser azul ou cinzenta (há quem a escolhesse verde ou até amarela, mas com alguma luta) Desta vez distraíram-se com o monstro, que é de certeza ilegal naquela forma.
Mary e Joaninha, vocês se calhar andam a passear para os meus lados :) É que se vê cada vez mais esses muros que subiram muito de alguns anos para cá.
Maria, essa tua terra é famosa pelas belíssimas paisagens. Basta ter visto aí os “muros” serem maciços de hortênsias para dizer tudo. E a divisória ser feita com sebes também é muito bonito e simpático. Se na minha casa desse para isso era até o que preferia! Claro que já me queixei à autarquia, até com um abaixo assinado e tudo, mas a autarquia é enorme e com coisas muito mais graves, sabes…
Miguel, é uma das coisas que me custa a total falta de respeito pelos outros. A norma cristã de ‘não fazer aos outros o que não se gosta que se fizesse a nós’ parece que só lá no novo testamento… O caso do teu pai é igualzinho ao meu, porque a torre também está situada num nível inferir ao da minha casa. E mesmo que fosse de um piso só, ele já tinha vista, não tinha era espaço porque aquilo é uma nesgazinha de terreno!
E bom dia a todos!!!!!!

cleopatra disse...

atrasada, mas esta é muito forte e muito triste, e no entanto espelha perfeitamente a inépcia, a anarquia como já frizaram e principalmente a falta de respeito para com os outros e muito pela paisagem protegida e por conseguinte pela natureza.
ao contrário da maioria sou uma tesa, muito falida ou uma falida muito tesa, podem escolher. não tenho casa própria, não conduzo, mas claro que tenho os meus sonhos de consumo, mas...ai! ai! estão tão longeeeeeeeee
mas compreendo a frustação e até a raiva. roubarem-nos a paisagem, tirarem-nos o sol...é mau. muito mau mesmo.
da minha janela ouço barulho e ruídos. são tantos que por vezes me pertubam de tal modo que nem me consigo concentrar. por isso, entendo. as torres, os imóveis colocados por obra e graças do dinheiro, deveriam ser realmente destruidos e não embargados e deixados lá por anos infindos. mas é a tal coisa, o país e governantes que temos.
não sei onde se situa a casa, talvez na Arrábida, não?
fizeram para lá umas coisas há anos, horríveis e deixaram para lá, mas como tenho andado arredada das maravilhas das serras...
té logo.
cleopatra