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domingo, abril 26, 2009

Utopia – a Justiça

Pensamos de vez em quando que o segredo de muitas coisas serem tão justas e nos compensarem tanto está apenas em dois pontos: o facto de termos a Constituição que temos, e de a cumprimos e respeitarmos tão escrupulosamente.
A nossa Constituição foi um grande trabalho que deu trabalho a fazer. Os mais jovens podem não se lembrar; primeiro elegeu-se uma Assembleia Constituinte com representantes de várias tendências que trabalharam depressa porque entrou em vigor num dia 25 de Abril, um ano depois.
Ali previam-se todos os direitos fundamentais, à saúde, à habitação, à educação, à expressão, à não discriminação, enfim a uma vida justa. Muita gente até de outros países tem vindo a dizer que as nossas leis são boas. Claro que poderiam não serem cumpridas e nesse caso não nos servia de grande coisa termos ou não ‘boas leis’, mas tal não é o caso.
Esse é um ponto onde nos podemos felicitar.
Criaram-se logo bons mecanismos para cumprir as leis. De início foi necessário uma inspecção dura e rigorosa, mas trinta anos depois toda a gente consciencializou que «as leis são para cumprir» começando pelo ‘espírito da Constituição' para além da sua letra. Evidentemente que existem umas ‘ovelhas desviadas’ e aqui e ali aparecem uns ‘espertos’ a pensar que vão conseguir fazer o que lhes trará mais benefícios mesmo que prejudique terceiros. Mas a inspecção é rápida, esses casos vão logo a julgamento e tudo se resolve.
A nossa justiça, que tem fama de ser uma das mais rápidas da Europa, pode dar resposta a uma situação mais complicada num tempo recorde. Um dos segredos foi ter-se desburocratizado muitíssimo as nossas relações com o Estado. Desde o 25 de Abril que se teve a noção de que o Estado somos todos nós e portanto é fácil «falar com ele». Nunca há dificuldades de acesso, e temos sempre uma resposta muito rápida. Por exemplo é impensável, para quem viva em Portugal após Abril, que exista um atraso num pagamento feito pelo Estado– seria como atrasarmo-nos a pagar a nós mesmos…o que é um absurdo!
E, como sabemos, em questões que impliquem Tribunal – não são muitas mas sempre vai acontecendo – a queixa chega a julgamento em pouquíssimo tempo e a solução vem em poucos dias mesmo em casos um pouco mais complicados. A «máquina da Justiça» tem a noção que se a resposta não vier em tempo útil, isso … é uma injustiça a somar à outra.
Enfim, muito mais havia a dizer, sobre a vida neste país de Utopia que se tornou Portugal post-Abril. Mas não vale a pena porque todos nós o sabemos, e a nossa imaginação é livre como o vento!

sábado, abril 25, 2009

(aumentem a imagem, por favor!)



E vamos voltar a ouvir

e

Todo o dia!

domingo, abril 19, 2009

Utopia – ‘Política Social’

Olhando não apenas para trás (para o nosso passado ‘antes do 25 de Abril’) como até olhando em redor, para outros países que consideramos desenvolvidos, podemos hoje verificar que uma das grandes melhorias do sistema em que vivemos está na nossa ‘política social’.
É certo que há quem se queixe de que paga bastantes impostos. Nunca se está completamente satisfeito, é evidente, mas quando sabemos que o dinheiro que se paga de impostos vai para as nossas maiores necessidades e para que todos tenhamos uma vida melhor, por mim, penso que assim está tudo bem.
A ver bem começa ainda «antes de nascermos». As crianças que nascem são desejadas, o planeamento familiar funciona em pleno e, no caso raro de uma falha, a IVG é uma operação rápida e sem custos. Contudo, é já muito invulgar, porque o planeamento é tão completo e há tantas facilidades para criar uma criança que, nunca é por motivos económicos que não se têm os filhos que se desejam ter. A grávida trabalha a meio tempo desde que sinta que é melhor para si, é seguida sem pagar nada no Centro de Saúde que mais lhe agradar e o parto, também sem qualquer custo, pode fazer-se onde agradar mais à família. O antigo «abono de família» foi tão aumentado que nada vai faltar ao recém nascido, e a mãe tem direito a ficar em casa cuidando do filho durante o seu primeiro ano de vida. Claro que o pai também acompanha o seu bebé, um mês ou mais, podendo inclusivamente aceitar ele parte da ‘licença de maternidade’ no caso de a mãe desejar voltar mais cedo ao trabalho.
Os pais que prefiram deixar o filho, do um aos três anos numa creche, até para facilitar o convívio com outras crianças, têm toda a facilidade porque existem pequenos agrupamentos em todos os bairros, com muito boas condições quer de instalações quer de qualificações de quem lá trabalha. Ficam plenamente descansados sabendo que os seus meninos estão bem entregues.
Durante a vida activa, no caso de uma doença súbita, um acidente, algo que desequilibre a estabilidade familiar, sabemos que podemos contar com o apoio, para além dos Serviços de Saúde, com especialistas de Serviço Social e Psicologia que estão disponíveis e prontos a ajudar de uma hora para a outra, ajudando a resolver, ou minorar, situações difíceis e que ultrapassem os recursos familiares.
No final da vida, o apoio que a sociedade dá é também excelente.
De uma forma geral, mesmo quando se é muito idoso, se ainda se está independente e lúcido, cada um permanece na sua própria casa onde é acompanhado por serviços de apoio que tratam das rotinas da casa e da alimentação, lhe fazem companhia, ajudam nos transportes, os acompanham a visitar família e amigos ou nas distracções preferidas. Quando a autonomia diminui muito, há pequenas residências para onde transportam as mobílias e recordações preferidas de cada um, em ambientes muito tranquilos com um acompanhamento discreto de enfermagem quando necessário, e se mantém uma boa qualidade de vida que a sociedade pretende que seja o melhor possível até final.

Não, o Estado não «substitui» a família nem os amigos, mas garante uma rede de suporte que permite viver com boa qualidade.

domingo, abril 12, 2009

Uma música ao Domingo

(estamos em Abril...)

A cantiga é uma arma


Zé Mário Branco




"A cantiga é uma arma
eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
Tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
e eu não sabia..."

Utopia – Saúde

Logo depois do «25 de Abril» um dos sonhos mais importantes que foi realizado foi a criação de um bom Serviço de Saúde.
Até então existiam Hospitais Públicos onde as pessoas doentes eram razoavelmente atendidas e a medicina privada onde eram
também acompanhadas em melhores condições e mais rapidamente. Mas a criação de um Serviço Nacional de Saúde foi uma preocupação prioritária, e isso ainda durante os Governos Provisórios.
Não foi fácil dado o estado em que o país de encontrava – por um lado as necessidades existentes e por outro a contenção de verbas, necessário nos primeiros tempos. Mas o empenho e vontade política foram gigantescos e hoje podemos respirar fundo e sentir uma segurança enorme, nesse campo.
Os cuidados de saúde foram «descentralizados» um pouco de acordo com o modelo dos países nórdicos, ou seja hoje um português que viva no interior ou na capital, tem uma resposta rápida e adequada seja qual for o seu problema de saúde porque o Poder Local está empenhado também na solução desse problema. Claro que as grandes respostas se situam nas capitais de distritos, mas a rede de transportes, até por via aérea, é tão completa que não é concebível uma pessoa adoecer e não ter quase de imediato o tratamento adequado, mesmo que viva longe de um grande centro.
Aliás, nós hoje temos uma Medicina Preventiva de tal modo bem estruturada, que só se torna necessário o transporte de urgência de um doente em caso de acidente, porque toda a gente tem um Médico de Família que conhece profundamente o que se passa com as pessoas que estão a seu cargo. e sabe prever a tempo o que pode vir a ser necessário. A nossa média é de um médico para cerca de 120 famílias, com os correspondentes serviços de enfermagem e terapias diversas, de modo a poder atender todas as situações possíveis, de imaginar incluindo os casos de Saúde Mental que têm uma boa resposta incluída no nosso S. N. S.

Uma das situações a que de início foi difícil dar uma resposta eficiente foi a dos atrasos nas cirurgias. Havia então, «listas de espera» para cirurgia que se arrastavam por um tempo exagerado, provocando um grande desgaste - até psicológico - a quem necessitava de uma intervenção desse tipo. Foi necessário um grande esforço, à época abriram-se novos blocos operatórios por todo o lado quase em tipo ‘hospital de campanha’ e os que existiam funcionavam sem nunca parar. Porque era necessário «pôr-se a casa em ordem» o esforço inicial foi muito grande, contudo, uma vez ultrapassada a barreira que era esse grande atraso inicial, tudo se tornou bem mais fácil. Hoje, se o nosso médico de família nos envia a um especialista e este considera que é necessário uma intervenção cirúrgica para curar o mal de que sofremos, esta processa-se no mais curto espaço de tempo possível, como dantes acontecia nas clínicas privadas.
A verdade é que este método, a extrema rapidez de resposta, mostrou ser até economicamente mais correcto, porque se atacamos a doença ainda «no ovo», ela não se desenvolve, e o Estado acaba por 'poupar' bastante dinheiro – além de muito sofrimento ao doente e família, como é natural.

É certo que há quem deseje um outro tipo de atendimento com mais ‘luxo, quartos mais requintados, cuidados mais individuais, se o desejar tem clínicas privadas onde se pode sentir como num hotel, mas nesse caso já a conta a pagar não é da responsabilidade do Estado.
E, pouca gente opta por esses equipamentos, pois através do nosso S.N.S. sabe que está em boas mãos, com um atendimento eficiente e atempado.

Valeu a pena.

domingo, abril 05, 2009

Uma música ao Domingo

Em Abril a escolha nunca podia ser outra.
Já adivinham quem vai aparecer por aqui aos Domingos.
Hoje Adriano.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Dia Z, de Zeca

Lembramo-nos dele muitas vezes.
Muitíssimas vezes.
Está ainda muito presente.
Contudo, a 23 de Fevereiro gosto sempre de deixar uma canção, o que é muito difícil porque gostava de «escolher tudo»!

Bem, para quem quiser ouvir outra coisa, passe por aqui onde encontra quase tudo




quarta-feira, abril 30, 2008

Desenhos

Um excelente desenho actual.
As raízes dos cravos:



do Raim's

O Diário da Ana

Terça-feira, 30 de Abril
Hoje também não se conseguiu trabalhar!
Pensar que amanhã vai ser feriado por ser Primeiro de Maio!!!!!!
Vamos finalmente festejar o Primeiro de Maio!
Para quem vive noutros países onde isto é normal, nem consegue imaginar como este facto é simbólico e a realização de tanta coisa que sonhámos. Ainda a semana passada foram presas pessoas (veio referido no jornal) por se atreverem a distribuir papeis apelando a que se festejasse esta data, e hoje vimos na televisão um desfilar de caras conhecidas a mobilizar-nos para um grande desfile, e dizendo que vai ser feriado!
E outro elemento importante e que confirma que finalmente somos livres acabou a clandestinidade para alguns, é que regressou hoje o Álvaro Cunhal. Veio de avião e nós fomos esperá-lo ao aeroporto. Estava muita gente também, mas muito menos que à chegada do Mário Soares, o que também é natural que hoje foi dia de trabalho, enquanto o Soares chegou a um Domingo. Foram duas chegadas contrastantes, o Soares vinha muito risonho e bem disposto, mas o Cunhal estava ainda um tanto tenso e de expressão um pouco fechada, mas tudo isto são grandes baforadas de ar fresco, passamos o tempo a respirar fundo, como metáfora e até na realidade.
Parece que não há ar puro suficiente para lavar os nossos pulmões de tantos anos de bruma.
Quanto a estes dois líders, vai ser muito emocionante vê-los amanhã, aos dois, carne e osso, no desfile do Primeiro de Maio.
Alguns de nós ainda têm receio. Irá correr tudo bem? O tempo está óptimo, e já está combinado que vai fechar tudo para toda a gente que quiser poder participar. Eu estou optimista, vai correr bem de certeza e vai aparecer muita gente.


Uma canção em Abril



terça-feira, abril 29, 2008

Desenhos


O Diário da Ana

Segunda-feira, dia 29 de Abril de 1974
É uma segunda-feira mas não é uma nova semana, é uma semana nova. Temos a sensação de que tudo é novo, tudo é possível, de que afinal se quebrou o «fado», o terrível fatalismo que nos fazia ver sempre tudo negro.
Ajuda bastante não apenas o que se vai ouvindo na rádio e vendo na TV, mas sobretudo o que se vai vendo da repercussão destes acontecimentos ‘lá fóra’. Vermos que grandes estações estrangeiras abrem noticiários com notícias sobre Portugal e tão elogiosas, é coisa a que não se está habituado e sabe tão bem!... Com a liberdade de imprensa vemos por todo o lado repórteres estrangeiros à procura de mais um testemunho, de um pormenor, de um dado novo.
E nós sabemos ainda tão pouco! O «Programa do MFA» (a sigla que se começou logo a dizer, só nos primeiros comunicados se falava do Movimento das Forças Armadas) é um documento ainda extenso. Sabe-se que foi redigido por um grupo de militares que sabiam bem o que estavam a fazer, mas fala-se de nomes como Vítor Alves, Melo Antunes, Victor Crespo, Charais, que ouvimos agora pela primeira vez. O nome que se ouviu mais, desde o princípio foi o do estratega deste golpe, um capitão (nem sei se é capitão?) chamado Otelo.
O Programa tem umas medidas ‘imediatas’, tal como a formação da tal Junta de Salvação Nacional que vai gerir o país até se formar um Governo Provisório Civil, e depois umas medidas ‘a curto prazo’, que implica escolher-se nessa Junta quem vai ser o Presidente da República, também provisório. Isso de se falar logo em Governo Provisório Civil, sossegou muita gente que já estava a imaginar que se ia cair de novo numa ditadura militar, mesmo que de outro quadrante. Mas eles falam em devolver o poder ao povo, em eleições, numa Assembleia Constituinte para se criar uma nova Constituição, e tudo isso são sinais muito positivos.
Esta coisa de não haver «vedetas» neste Movimento é uma das coisas bem simpáticas. Conta-se por aí que alguém perguntou:
Quem manda aqui? Resposta:
“Mandamos todos!”
Mas quem é o mais graduado? Resposta:
“Somos todos capitães!”
Lindo.

segunda-feira, abril 28, 2008

O Diário da Ana

Domingo, 28 de AbrilEstes dias de emoção continuam sem parar.
Muitas vezes torna-se difícil distinguirmos os boatos dos factos reais: toda a gente 'sabe' imensas coisas, e conhece alguém que é do MFA, é curioso como depois da coisa estar feita já muita gente «pressentia» que este golpe estava em incubação! Pois é!


De qualquer modo, temos conversado imenso entre nós todos e uma análise muito superficial diz-nos que, apesar de ter sido tudo montado de um modo impecável, e estes «capitães de Abril» terem sido muitíssimo corajosos e… modestos [ainda no dia de hoje não se conhecem bem os nomes, nem sequer dos mais importantes] afinal tudo isto teve o sucesso que sabemos porque não se acatou os conselhos de se ficar em casa. Foi o povo que, indo para as ruas do modo como foi, as entupiu de tal modo que bloqueou as forças que poderiam ter defendido o regime. Numa certa forma foi uma loucura de todos nós os que fomos para a rua, mas foi essa loucura que em certa medida garantiu o sucesso da operação.

Mas hoje foi também um dia memorável porque, para além dos milhares de refugiados políticos espalhados pela Europa que têm regressado sem parar desde anteontem, hoje deu-se um regresso famoso: voltou o Mário Soares. Veio de Paris de comboio, e chegou a Santa Apolónia. O seu regresso foi também a garantia para os mais receosos de que podemos ter confiança de que estamos a caminhar para consolidar uma democracia.

Quanto à sua chegada a Santa Apolónia foi uma verdadeira apoteose! Um delírio. Nem a Simone depois de ter cantado a Desfolhada na Eurovisão!...Nós ainda tentamos vê-lo mas a multidão era tanta que nem ao longe o vimos. Só depois na televisão e nas fotografias dos jornais, mas enfim sempre podemos recordar que estivemos lá.
Grande Domingo!

(e todos pensamos como irá ser o Primeiro de Maio!)

domingo, abril 27, 2008

Uma música ao Domingo, em Abril

O Diário da Ana



Sábado, 27 de Abril
O primeiro sábado em Liberdade!

Se ontem tenho de reconhecer que não trabalhei nada, hoje então…
Quem é capaz de se concentrar em papeis e temas teóricos, quando a vida de repente deu uma volta tão grande? O que era importante há dois ou três dias, hoje deixou de ter a menor importância.

É muito emocionante encontrar tanta gente que não se via há anos: os nossos amigos que tinham ido para fora – França, Inglaterra, Suiça, Bélgica… eu sei lá, toda a Europa estava cheia de quem se tinha recusado combater numa guerra com que não concordava – e ainda outros que tinham desaparecido nas sombras da clandestinidade, para combater o regime na ilegalidade. Todos estes estão a regressar ao nosso convívio, desde ontem que não paramos de receber telefonemas para nos encontrarmos com este e com aquele ou aquela – já tenho chorado não sei quantas vezes.

É que ainda não nos habituamos…

Como quem acorda de um sonho, mas nos primeiros minutos não reconhece bem onde acabou o sonho (ou pesadelo) e começa a vida real. Sinto-me muito assim. Claro que os jornais - que têm esgotado as tiragens! - e as imagens da TV, ajudam a ver que tudo isto é real, mas…

Hoje à tarde, ia com o João pela Avenida da Liberdade e vi um grupo que ia gritando «O povo unido jamais será vencido» e «O povo está com o MFA». Juntámo-nos ao grupo que era de uma dezenas de pessoas, completamente desconhecidas para nós, mas isso o que interessa? Já não há informadores, não há Pide!!! podemos falar à vontade com toda a gente. A meio da Avenida o grupo era já mais de cem, e quando chegámos ao Marquês já nem os conseguia contar. Esta espontaneidade sabe tão bem. Todos nos ríamos, e havia uns mais organizados, talvez essa malta que tinha voltado do estrangeiro, que disse para darmos os braços uns aos outros e o grupo pareceu logo mais organizado, além de nos sentirmos unidos.

Uns rapazes e raparigas tinham uns spays de tinta e iam escrevendo nas paredes Liberdade, Viva o MFA, Fascismo nunca mais, frases desse tipo. Nunca tinha visto e estava a achá-los muito valentes quando consciencializei que agora se pode dizer isso tudo. Mas há medos que custam a desaparecer.

À noite fomos a casa dos «Franciscos» apareceu um maralhal enorme de malta amiga, e imensos dos que tinham já regressado. Falou-se muitíssimo dos que estão agora em África, como é que terão sido informados disto, e o que devem estar a sentir. Se nós estamos como estamos, então eles…! Havia algum receio de que a hierarquia do exército, a que está nas colónias, não aceitasse este golpe, mas pelo que se vê isto foi muito bem feito, e não houve problemas graves. Talvez o Spínola tivesse sido uma jogada importante por mais que nos custasse.
Enfim, este sonho continua!

sábado, abril 26, 2008

Desenhos

sexta-feira, abril 25, 2008

Finalmente!


Onde estavas ao anoitecer do 25 de Abril?...

Nessa altura eu tinha quase 16 anos.
Já tinha experimentado as dificuldades de formar uma Associação de Estudantes no meu liceu. Tinha lido muitos livros emprestados, discutia noites inteiras com os meus amigos, era uma bomba de emoções prestes a rebentar. Sentia-me revoltadíssimo com a situação do país e assustado com a perspectiva de ir para a guerra.
Aquele dia foi um sonho para mim. Desde manhã que andava na rua com o grupo dos meus amigos e amigas. Éramos muito novos, mas loucamente entusiasmados. Íamos encontrando outros grupos, de malta do cineclube, do club de jazz, da pró dos liceus, e íamos engrossando o grupo que já era enorme. Trepávamos aos Chaimites, que dantes nos metiam medo por significar guerra e morte, e agora nos traziam a paz. Estava tudo enfeitado de cravos vermelhos, um acaso que se tornou um símbolo.
Vivam os cravos! Viva o MFA! Viva a Vida! Viva a Liberdade!
Gritávamos palavras de ordem que se inventavam na altura, e recuperámos «o povo unido jamais será vencido» do Chile, o pobre Chile, na altura sob a pata de Pinochet. E a emoção de comprar jornais que traziam na primeira página: «Este jornal não foi visado por nenhuma comissão de censura». !
Claro que não havia telemóveis na altura, portanto para falar para casa andávamos a juntar moedas para ir a uma cabine. A minha mãe queria-me em casa, mas eu desobedecia: «Oh mãe!!! Hoje, que caiu o fascismo?! Hoje não me acontece na-da!!!» A minha namorada não conseguiu falar da cabine mas falou do telefone de uma loja, porque naquele dia todos facilitavam, todos estavam solidários. Nunca se viu coisa assim!
Finalmente ‘desmobilizámos’ para jantar, também tínhamos fome.
Mas combinámos dar a volta aos pais e encontrarmo-nos depois do jantar. Havia tanto que discutir, que saber, que planear… Sabíamos que a vida estava verdadeiramente a começar.


recordar

Onde estavas na tarde do 25 de Abril?...

A minha avó morreu há pouco, com 80 e tal anos. Tinha uns 55 anos quando foi o 25 de Abril, eu ainda não tinha nascido. É engraçado porque ao ouvir o que ela me contava desse tempo e o que contavam os meus pais, até parecia que se estava a falar de países diferentes.
O meu avô, que já tinha morrido, era um legionário e a minha avó estava perfeitamente integrada na sociedade de então, o tal Estado Novo. Considerava que tudo estava bem e, para ela, a minha mãe tinha sido ‘desviada’ do caminho certo pelo meu pai, que ela olhava como um perigoso revolucionário.

Nesse dia, ela só soube que havia alguma coisa de errado pela criada que lhe veio dizer que na praça se falava em revolução. Ligou o rádio e as notícias deixaram-na assustadíssima. Telefonou a várias amigas que ainda a assustaram mais, falavam em fugir, ir para as suas casas de campo, que os revolucionários iam matar toda a gente. Rezou a Nossa Senhora, fez promessas, a meio da tarde estava aterrada sem saber o que fazer.

Foi quando chegaram os meus pais com a minha irmã pequenina, todos bem dispostos, para lhe dar um beijo. Pôs aos gritos:

“ - Que é que fazem aqui!!! Vão já para casa! E ainda por cima com a menina, desgraçados, inconscientes! Olhem que corre sangue nas ruas…”
“ - Oh mãe, ponha-se calma! Quem é que lhe disse essa?!”

“ – É que vêm aí os comunistas e matam toda a gente! É uma revolução!”

“ - Pois é, é uma revolução mas não morreu ninguém. Correu tudo muito bem”
Começou por não acreditar. Aquilo eram “coisas do genro” com certeza. Contudo a calma com que ele falava, deu-lhe alguma tranquilidade. Se calhar as coisas não estariam assim tão mal como ela receia.
Desconfiada voltou a ligar a televisão depois deles saírem. Que esquisito. Está tudo a passar-se ao contrário do que pensava. E… enfim, se calhar agora o seu sobrinho já não ia para a guerra, o que a andava a ralar muito.

Contudo a minha avó resmungou o resto da vida, e eu gostava dela mas era um pouco irritante estar sempre ‘do contra’, sempre à procura do que estava mal.
Só que, naquela tarde, teve de reconhecer que as coisas não foram como ela receava.