sexta-feira, outubro 23, 2009

Não são praxes

… é bulling.
Chegou agora à comunicação social o que se passa entre os muros do Colégio Militar. É bom sinal. Tal como na violência doméstica, não há a certeza de que existam mais casos, mas o que decerto acontece é que se está a perder o medo de represálias e se começa a poder falar.
Não conheço o Colégio Militar pessoalmente. Nem na minha família nem entre amigos tive militares e não tenho especial atracção por fardas. Durante muito tempo pensei que seria um colégio interno como outro qualquer, com a dureza que pode ter um colégio interno e as suas vantagens (??)
Contudo, essa ideia foi-se desvanecendo. Conheci vários miúdos, que me pintaram um quadro da vida dessa instituição que nunca se poderia defender. De notar que raramente eles falavam na primeira pessoa, tinham demasiado receio ou vergonha para o dizer, mas tinham visto um camarada que… ou havia um colega que lhe tinha contado… tinham sabido de um graduado… Ou quando me contavam algumas das violências era com um meio sorriso como quem diz «eu cá sou valente, não me queixo».
A verdade é que estou a falar de crianças. Meninos de 10, 11, 12 anos. Que contavam de um modo acanhado que a culpa era sua, tinham-se atrasado e portanto tiveram de fazer 50 flexões, ou não sabiam fazer bem a cama e nesse dia tiveram de dormir a noite toda sem colchão. Sonhavam com o fim-de-semana em casa, o paraíso na terra. Porém a maioria não questionava a ordem lá reinante e essa disciplina (?) assustadora. Como os pais também era militares, esse era o modelo que tinham conhecido e para o qual se julgavam preparados. E, o interessante, é que o medo entre eles não era dos professores do colégio ou dos elementos responsáveis, era dos alunos mais velhos, os «graduados», afinal colegas mas a que a hierarquia dava um poder absoluto.
Uma das coisas que me chocava quando falava com essas crianças, é que muitos deles não se revoltavam nem queriam fugir àquela sorte mas ambicionavam chegar ao dia em que por sua vez fossem graduados. Nunca entendi se isso queria dizer apenas que já não seriam agredidos ou que seria o momento de agredir os outros… E tenho essa dúvida, porque os actuais graduados, os que magoam deste modo os mais pequenos, já passaram por isso e ao chegar à sua altura repetem tal e qual o processo por que passaram!
Diz-de sobre os abusos que há 600 punições por ano representando decerto tantas ou mais queixas.
Mas os responsáveis pelo Colégio não acham demais?...
Ou isto será uma cadeia infinita, e os próprios responsáveis já passaram por isso em criança considerando tal «normal» e um processo de ‘enrijar’ os alunos?...
De qualquer modo, tenho lido por aí que se trata de praxes, coisa de que agora se fala bastante porque também tem transbordado o conhecimento público, ‘praxes’ violentas e completamente vexatórias. Essa é outra questão, também séria, e que seria bom enfrentar-se. Mas no caso dos Meninos da Luz não é uma estúpida iniciação numa carreira académica, é um processo constante de educação (?) por elementos nomeados para esse fim e que o praticam todo o ano.
Vamos ver se finalmente com este barulho esta construção fica abalada.

13 comentários:

Joaninha disse...

Não sei se era do meu pc, mas o Pópulo fugiu esta manhã, e só agora tive acesso a ele.
Vou voltar mais tarde, porque estou com muito pouco tempo e tenho de ler isto e o link com mais atenção.

kika disse...

Gosto de disciplina, gosto de pessoas com bom carácter e forte,gosto de ética e, sabemos que aquela instituição procura formar HOMENS QUE FAÇAM A DIFERENÇA numa sociedade que enfim.. vai dando provas por aí, que no meu ponto de vista, não são as mais desejáveis. Contudo, repudio toda e qualquer tipo de violência e muito mais quando é exercida sobre os mais fracos . Abomino praxes , nunca aderi a nada disso, ía ao cinema e divertia-me á minha maneira!!!
Falta-me acrescentar a média de duas punições por dia é escandaloso.
Oxalá a queixa aprentada en tribunal surta algum efeito nesses "meninos" e no seu Colégio

sem-nick disse...

Estas praxes de que agora se fala tanto são uma forma de bulling, Emiéle!
(que raio, mulher, tu conheces tanto tipo de miúdo!!!)

A kika tem razão, uma coisa é a disciplina, o aceitar regras, mas outra é este tipo de violência que nada justifica. O que me impressiona é que na maioria das vezes são os próprios que nos parecem vítimas, que justificam.

sem-nick disse...

Ainda à Kika: não sei se fui eu que não te entendi ou tu leste mal, quando ali o artigo fala de 600 punições, é o Colégio que pune os que maltratam os miúdos!!! O que quer dizer que houve 600 alunos que se queixaram e consideram que eles tinham razão! O que leva a pensar que se calhar outros tantos também se queixaram mas pensou-se que não tinham razão e a maioria nem sequer se queixou...

kika disse...

Não li mal sem-nick é exactamente isso que eu queria dizer, talvez não me tenha expressado da melhor forma.. .se em media houve duas punições por dia quantas não seriam as agressões??
Está mais claro?!!

King disse...

Nunca fui muito à bola com tropas e fardas...
Uma coisa são os crescidos «os pupilos do exército» ou lá o que é. Mas estes «meninos da luz» vão para lá porque os papás decidem assim. E como aqui se disse isso vai passando de geração em geração, foram castigados e batidos, mas depois mandam os filhos para serem também castigados e batidos em nome de...
Não tenho paciência!

King disse...

E não é exactamente barato...
Quase setecentos euros por mês, deve custar a dar.

Miguel disse...

Sem comentários...

cleopatra disse...

uma coisa é disciplina e boa educação. outra coisa é selvajaria pura e simples.
mas também quem coloca filhos em sítios daqueles, não me auguram nada de bo.
sou completamente contra tudo que seja tropa, fardas e armas...não creio poder fazer mais comentários...
cleópatra

Mary disse...

Hoje, quase fim de semana, aqui o blog teve muito menos comentários Emiéle... Se calhar estás desapontada.
É que mesmo estando de acordo (obviamente) afinal só dá mesmo para falar desse acordo.
Como disse aqui a Cleópatra neste caso, os tais graduados têm toda a culpa mas a responsabilidade maior é dos pais. Se eles andaram lá, sabia «o que a casa gasta»...

Emiele disse...

Boa noite a todos...
Venho muito de passagem só «correr o taipal» :)

(Afinal sempre apanhei uma virose qualquer (a gripe?) e contra aquilo que gosto nem vou para o meu refúgio nem nada; este fim de semana ficarei por Lisboa de benurons e cêgripe, e nem vou dar muita atenção ao pópulo tadinho. isto é mau olhado, por estar para aqui a embirrar com os aprumadinhos dos graduados, mas a verdade é que também não aprecio muito fardas, e quando justificam para estas atitudes, menos ainda)

josé palmeiro disse...

Com os afazeres que me acolhem, nem tive tempo de dizer fosse o que fosse, sobre este, particular, ou não tanto, assunto.
Sempre achei as "praxes" uma ignomínia, daí não concordar com essa prática.
Quanto aos "colégios militares e pupilos do exército", ainda pior, pois só servem para moldar, de pequenino, todas aquelas crianças, envolvendo-os na nebulosa que é, tudo aquilo.
Emiéle, agora é para ti: Melhora depressa, não para vires para aqui dar notícias e contar coisas cheias de interesse, não, porque isso sabemos, que não irá parar, apesar de, às vezes, ser necessário uma manutenção. Agora só peço que melhores e que apliques o tratamento adequado à situação que te atingiu. Resguarda-te e uma consulta à "linha da gripe", é um bom caminho. Bem as tuas melhoras, ão rápidas, que há que ter cuidado com as recidivas, mas consistente. Força, amiga!!!

Anónimo disse...

Aqui, nestes casos o que mais choca, é aquilo que afinal é louvado pela instituição: O código do silêncio
Parece, para quem fala com um aluno ou ex-aluno, que a camaradagem - que decerto é um valor- é contudo vestida com umas roupas que fazem lembrar a máfia. Ora afinal podia e devia também haver camaradagem entre os agredidos que os motivasse a defenderem-se dos tais famosos graduados que só sabem 'educar' à bruta.