terça-feira, outubro 20, 2009

Educação de «príncipe herdeiro»

Aqui há uns tempos deixei aqui um post falando de diversos tipos de (má) educação
Eu sabia que tinha razão, os exemplos que conhecia era muitos, mas achei curioso encontrar na semana passada a confirmação da minha crítica à educação tipo príncipe herdeiro, de acordo com os especialistas da Sociedade Portuguesa de Pediatria
E não só. Por essa Europa encontram-se crianças pequenas bem stressadas já, segundo o livro "Sob Pressão: Como Salvar as Crianças da Cultura dos Hiper-Pais".
Conheci há pouco um menino de 3 anos que sabe ler. Entrou em Setembro para o infantário, ainda não fala bem, não mantém uma conversa connosco, em vários aspectos do seu desenvolvimento social e até motor estará até um pouco atrasado, mas lê. Uma leitura global que, segundo os pais, desenvolveu sozinho magicamente de um dia para o outro e sem insistência deles. Embora estranho e muito raro, pode acontecer, mas estes pais estão babados com a sua cria e não reparam que não é uma criança feliz. Os seus interesses não são os dos seus colegas, é um menino muito solitário.

"Gasta-se demasiado tempo, dinheiro e energia a ajudar crianças ainda muito pequenas a construir um 'killer CV', um currículo cinco estrelas e infalível" diz o autor do livro citado. Ou, “é preciso tempo para brincar sem outro objectivo que não a brincadeira" nas palavras do presidente da SPP.
É de pensar, não é?


21 comentários:

Joaninha disse...

Há crianças que começam a ler espontaneamente muito cedo. O nome delas, dos pais, dos irmãos, reconhecem a mancha da palavra e com boa memória a coisa vai. Desde que na sua casa se valorize a leitura, também.
Mas o atafulhar as crianças com actividades extras por vezes tem a ver com o pouco tempo dos pais. Ao menos ali estão debaixo do controlo...

Emiele disse...

Tens razão, Joaninha, apesar de 3 anos acabados de fazer (ou talvez ainda nem os tivesse quando começou) seja mesmo cedo! O estranho aqui é que a criança não lê apenas nomes de pessoas ou objectos que tenham sentido para ela, mas «junta de freguesia de Alcabideche» por exemplo. Fez-me alguma confusão, até porque no resto não é nada uma criança prodígio. Digamos que lê melhor do que fala...

sem-nick disse...

É o mundo moderno.
Os miúdos frequentam coisas camadas «ocupação dos tempos livres» taditos. Se os ocupam deixam de ser livres!

sem-nick disse...

Mas o que mais me impressiona é a competição escolar nalguns deles. O desespero de não ser o primeiro, o comparar as notas com os amigos, isso passa-se mais com raparigas, mas não gosto nada porque estraga a camaradagem.

josé palmeiro disse...

A Joaninha tem razão quanto ao haver crianças que começam cedo a ler ou a juntar as letras, mas o que a Emiéle afirma que a transtorna é que o mesmo se isola, não tem amogos, nem os consegue fazer, e, os pais, gostam. Estranho, muito estranho.
Quanto à panóplia de ocupações e´mesmo um exagero. E brincar, e fruir a natureza? Será que os pais têm assim o tempo tão ocupado que se não possam dedicar a eles? Sim, 10 minutos apenas, já seria tempo necessário, pois veriam como é bom aumentá-lo.
Os filhos, os netos e todas as crianças, valem mais que o dinheiro que se aufere, ao fim do mês!
Sei que vão dizer que é utópico, mas eu, com a idade e experiência que tenho, já me posso dar ao luxo disso, ainda que tenha que fazer algume ginástica aplicada, para que a verdade do Millôr Fernandes, ( "Cada vez, sobra mais mês, no fim do dinheiro"), me não tolha os movimentos.

A Senhora disse...

Eu tive o meu segundo filho porque o meu primeiro simplesmente ficava com os livros, preferia entender o mecanismos das coisas, do que brincar como criança. O segundo, até hoje, com 12 anos, o ensina esse tipo de coisa. Os dois aprenderam a ler e a escrever muito antes da hora - 3 anos. Não só isso, mas brincavam de descobrir no globo terrestre os países e suas capitais e bandeiras. Astronomia, os nomes das camadas atmosféricas e adoravam conversar com piloto de avião para saber em qual camada estávamos. Fora isso, crianças elétricas, que queriam saber tudo e nõa paravam um instante sequer e sem disciplina.
Uma das alternativas que optei foi colocá-los em aulas de música, já que tem que usar uma liguagem que necessita estudo. Outra, foi fazer judô, para gastar energia e ter disciplina. Ainda não consigo me arrepender disso.
Entretanto, eles querem ficar mais tempo na escola fazendo outros esportes e eu deixo, porque não só encaram como lazer, mas também é o local onde encontram seus pares.
Para horror dos professores e coordenadora, nunca os obriguei a fazer tarefas escolares (que evidentemente não fazem), nem mesmo a estudar para as provas. Mesmo assim, eles tem as melhores notas, são líderes em seus grupos e, como me disse a coordenadora, tem muita credibilidade junto aos professores.
A única coisa que eu os "obrigo" a fazer é música. É uma forma deles aprenderem outra linguagem, matemática, a reforçar a visão espacial, a leitura a respeito de compositores,interpretação e síntese dessa leitura, história e arte como um todo. Não é pouco, mas eles veem um sentido prático, muito embora cada um já tenha optado pela sua carreira profissional (claro, qeu como a gente bem sabe, o ano que vem muda) e não é ser músico ou esportista.
Davi, atualmente com 13 anos, quer ser piloto comercial e Arthur, com 12, quer ser médico pediatra.
Davi tem um blog sobre o assunto. Arthur vê todo documentário e livro sobre o assunto que lhe cai na mão e olhos.
Existem certos "príncipes" que você não consegue segurar.
E eu falei muuuuuuuuito!! :))

fj disse...

Talvez apenas com as "exeções" da Republica Popular e DEmocrática da Coreia ( vulgo coreia do norte para os fachos )e a França , as republicas não possuem este problema. Procedem talvez por analogia, e então entendemo-nos.Faz-me lembrar o meu caso, mas o meu desenvolvimento era global.Ainda me lembroo de ser sempre o melhor entre os melhores. Infelizmente com a promoçao da aritmética a álgebra, por defeito de ensino, não de aprendizagem no que esta me fosse imputavel no supostamente harmonioso casal ensimo/aprendizagem, começou aí a minha decadêcia intelectual, que infelizmente não tende a melhorar.Desculpem a pessoalização deste comentàrio, mas só deu isto...Lembro-me que quando passei por economia, já os meus colegas iam no 2º ano e ainda andava a reler,com dificuldade, o então programa da disciplina do 6º ano do liceu!Bem como o comentário de um prof. dizendo.me que iria dar um bom economista teórico,Assim como quem diz vais ser um espl~endido ponta de lança teórico, ou seja nada.Tudo ficou por aqui,

kika disse...

Os papás hoje dia precisam de muito tempo para si próprios, isto é, muito trabalho para muito consumir!
Porque o consumo é uma palavra de ordem.
O dia fica curto para dedicar às crianças dando-lhes afecto e brincadeira.
Estas passam os dias com estranhos e só dormem em casa ( muito bonitas), mas sem vida,sem alma.
Não podemos estar a criar uma sociedade sã e equilibrada agindo assim !!
Temos jovens que nos mostram que algo vai mal..
Competição exarcebada, frustração , solidão , carências de afecto que podem levar ao alcool , drogas, jogo e sei lá!
Valham-nos as excepções para manter um pouco o equilibrio.

A Senhora disse...

Individualismo, consumismo e filhos como amostra-grátis?
Não necessariamente. Antigamente os filhos, quando se casavam, moravam tão próximo aos pais que muitas vezes nem saiam do própria propriedade da familia. Hoje, para terem algum tipo de instrução eles tem que sair, muitas vezes para outra cidade - isto tem um custo, e às vezes elevado.
São raros os casais que somente um consegue bancar todas as despesas da familia. Dependendo da cidade, as despesas são maiores ainda comprando-se as mesmas coisas.
Assim, todos os membros fazem jornada de trabalho fora de casa (inclui-se as crianças que ficam em creches e escolas em tempo integral). O pouco tempo que tem de convívio é frente à televisão, ou contando sobre o seu dia de trabalho, ou ralhando com a criança irrequieta, ou aliviada porque a criança já chegou da escola adormecida.
Não concordo que seja culpa dos pais, simplesmente, mas de todo um sistema que não valoriza a familia e o ser humano - é só ver esses suicidios misteriosos na FanceTelecom.
E por não valorizar o ser humano, também descartam aquele que foge ao padrão normal, que não são poucos - 2 a 4% da população. São anomalias que acabam não se encaixando em nada. Pior ainda, são poucas as instituições que trabalham com eles.
Como ajudar crianças que querem saber muito e ao mesmo tempo querem ser crianças? Com o que temos hoje, vai matar uma dessas duas facetas.

kika disse...

Senhora , não pretendo culpar os pais só de per si, mas são a base da célula familiar.
Há pais que fazem opções de vida saudaveis para cuidar dos seus filhos.
Talvez não usufruam de bens materiais, que para uns são essenciais para a sua afirmação ,e para outros isso pouco importa.
Há quem interrompa a sua carreira e a retome mais tarde!
Há opçoes que se podem fazer. Os avós , quando é posssivel, têm um papel importantissimo.
O que me custa a aceitar é proporcionarem tantas actividades, que custamtanto dinheiro. Actividades essas que desgastam a criança que chega a casa , banho e cama e ás 7 da manhã tudo se repete!
Tive muita sorte!!

gv disse...

emiele tens um caso que pode fazer história no mundo da linguística. se alguém o estudar naturalmente. a ti, como cidadã consciente, compete-te preservá-lo, isto é isolá-lo bem estanque do resto do mundo, não deixar nenhum psi ou pri ou cli tratá-lo ( como se devia ter feito com os ditos "tugas" de malaca cujo português do século XVI desapareceu com a chegada dos professores de português) enquanto não aparece a primeira equipa de investigação. esse menino acaba de vez com o saussure e todos os que na sua senda defendem a primazia da fala sobre a escrita e a subordinação da segunda à primeira: nele o código secundário funciona como o código primário sendo a fala uma mera transcrição oral da escrita.
quanto a mim o aspecto mais entusiasmante a estudar, neste caso, prende-se com o mentalês (à la s. pinker).
por outro lado, a sua existência pode vir a provar a veracidade de certas teorias, no que ao chinês diz respeito, exactamente sobre o aparecimento primeiro da escrita (sinogramas claro) e só depois da fala...

King disse...

(a diferença que faz passar aqui pelas 9 horas ou à hora do almoço!!!)
Bem, é mesmo verdade que todos temos tendência a personalizar os temas. E este presta-se!
Muito giro, o testemunho da Senhora. A verdade é que acontece dois irmãos muito diferentes, e como raio é que os pais devem conviver com isso?...
Hoje em dia, pedagogos, pediatras (como é o caso que citas) psicólogos, e muita gente ligada mais ou menos à educação anda a bater nessa tecla. Deixem as crianças ser crianças.
Contudo, penso que os pais que enchem os meninos de milhares de «formações complementares» o fazem com a melhor das intenções. É a tal ideia de os preparar para o mercado competitivo o mais cedo possível.
E, isso vale a pena?... Não sabemos.

King disse...

O que escreveu a GV reforça a dúvida com que fiquei.
Uma coisa é uma criança ter uma magnífica memória e repetir como um papagaio os sons que o adulto lhe disse, mas entender o mecanismo da leitura e ainda falar mal, é de pasmar...

Emiele disse...

Mas sabes, GV que cheguei a pensar que seria conveniente que um neurologista infantil observasse aquele miúdo, tão anormal me pareceu o caso. Mas como ele nos olha nos olhos e estabelece uma relação adequada, não será caso para se imaginar nenhuma doença mental. Mas os pais devem ser incentivados e estimular outros interesses, ou cada vez ele se isolará mais dos colegas.
A música de que fala a Senhora até é uma bela sugestão.

Mary disse...

Fui reler o antigo post. Já na altura achei graça e continuo a achar as 5 qualidades de «má educação».
E todas bem intencionadas!!!
E, de facto os «tempos livres» afinal serem tão pouco livres tem que se lhe diga, mas isso não é culpa dos pais. A verdade é que não se pode ter sol na eira e água no nabal: quando os pais trabalham e muitas vezes longe de casa ou da escola dos filhos, as crianças têm de ficar debaixo de olho. E a ideia que têm é que sempre aprendem alguma coisa.

A Senhora disse...

Bom...
O caso é que a minha familia, do lado do meu pai, da minha mãe, do meu marido (pai e mãe), todos são deste jeito.
Mesmo nascidos em famílias muito simples, as altas habilidades sempre foram identificadas e incentivadas desde cedo.
O grande problema de crianças com altas habilidades é que, quando não são percebidas como tais, ou são tratadas como macaquinhos de circo, ou não recebem a educaçào e o direcionamento que necessitam. São crianças altamente motivadas, mas que uma vez que não recebem o estímulo correto, apagam, literalmente.
Quase aconteceu com meus irmãos, comigo, e meus filhos. Foi quase, porque a familia teve um papel muito importante nessa motivação, uma vez que a escola ainda não sabe trabalhar com isso. Somente uma professora, a do meu filho, soube trabalhar com isso e ganhou ele e toda a classe. Ela, eu sei que teve que trabalhar triplicado para que todos saíssem ganhando.

E claro, eu fico uma tagarela quando o assunto é esse, porque senti na pele e sinto até hoje o descaso para com essas crianças que querem mais.
E nào é o seu caso, Emiele, porque você tem preocupação com o garoto.

Eu cheguei a escrever um post recentemente sobre isso.
http://caldeirao-da-bruxa.blogspot.com/2009/10/manivela.html
Dá para ver a carinha dele. :)

Ai, chega! Estou virando a chata. :)))

Joaninha disse...

Senhora, as tuas histórias lá no blog são lindas e muitíssimo bem contadas, mas o certo é que se há crianças muito dotadas - e felizmente vê-se que é o caso dos teus meninos - e que também são crianças (pela carinha da que vemos no link que deixaste nem é preciso mais) acho que aquilo para que a Emiéle chama a atenção e eu também vejo muito, são meninos que por causa da ansiedade dos pais ou, sei lá, da sociedade, acabam por não ter possibilidade de serem verdadeiros meninos, ficam uns adultos pequeninos. Quando uma criança diz que quer ser bombeiro, ou aviador, ou bailarina, ou presidente da república, quando for crescido, isso faz sentido. Mas se diz que quer ser gestor, eu já estranho. Assim como os que dizem que não sabem mas querem ganhar muito dinheiro.
Há uma certa confusão de valores. E a imaginação de muitas crianças parece com menos fantasia.

A Senhora disse...

Nesse caso, Joaninha, eu até tenho as minhas teorias... :))
No meu tempo nós mal viamos televisão, os livros não eram tão ilustrados e o cinema não era tão frequente. Não existia computador e muito menos internet. Jogos online, nem pensar!
Nossa imaginação dava conta de tudo isso e muito mais!
Hoje, com a tecnologia à disposição de todos, todos mesmo, deixamos para outros a tarefa de imaginar.
Ainda sobra aquele velho desejo de sermos como nossos pais. E os heróis de hoje já não são bombeiros, nem enfermeiras, mas aquele que ganha muito bem para conseguir atravessar uma crise - aliás, toda criança deve ouvir coisa parecida em casa hoje em dia.

Emiele disse...

Olá a todos!
:)
Passei por aqui duas vezes hoje mas só para deixar respostas pontuais, ou esclarecer pormenores que me pareciam confusos. Mas venho agora responder a quem passou por cá.
Pois, FJ, deste a piadinha quando falaste da Coreia e... da França. É mesmo verdade que quando escrevi o título, depois do que aqui deixei ontem também fiz a associação :) Quanto às tuas grandes capacidades se a matemática não é o teu forte, não desmereças do resto, s.f.f.!

Sem-nick, tens toda a razão quanto a essa competição escolar, e então no secundário é visível, mas aí temos de nos lembrar dos números clausus da entradas na Universidade - cada colega é afinal um concorrente.
Zé Palmeiro, claro que sim, e muitas vezes um pouco de tempo não é tão difícil como isso, mas olha que os avós já não são como dantes. Com a reforma no mínimo aos 65 e o trabalho das mulheres, muitos avós só estão disponíveis para os netos quando eles são adolescentes. Não será o teu caso, mas passa-se bastante.
Senhora, tenho de agradecer uns comentários que são melhores do que o meu post. Evidentemente que essa experiência é fantástica, mas eu falei do outro lado da moeda, crianças normalíssimas que os pais desejam aumentar-lhes as competências a poder de mais horas de trabalho, e que deveriam poder brincar.
Kika, é a tal bola de neve, os pais são responsáveis pelos filhos, e por sua vez a sociedade é responsável pelos pais... é todo um modelo.

Saltapocinhas disse...

Podes dar-me mais informações acerca desse livro?
é que não o conheço.

Emiele disse...

Saltapocinhas, conheço outros deste escritor, este livro não o li ainda, mas vou mandar-te por mail aquilo que sei.