sábado, maio 02, 2009

Só por desafio?

Não sou fundamentalista em coisa nenhuma, nem com o politicamente correcto, nem com o politicamente incorrecto.
Ou seja, em relação ao que vou falar, eu pessoalmente não gosto de touradas, fui a duas ou três na vida para saber como era, também vi mais duas ou três na TV e chegou.
Não gosto, contudo aceito que se goste. Tenho amigos que gostam, vêm o aspecto de festa, os toureiros quase como uns bailarinos, e argumentam que há coisas piores. Enfim... Como disse, aceito mas no caso da tourada chamada à portuguesa, a que termina com uma «pega» onde pode haver uma luta homem animal mais... leal.

Na quinta-feira estava a jantar em restaurante, daqueles de bairro que têm a tv ligada, e leram uma notícia acompanhada de imagens que provocou um silêncio gelado em todas as mesas. Entreolhámo-nos de mesas para mesa. Era esta:
Os Açores estão a um passo de legalizar a realização de "sorte de varas" ou "corridas picadas", como são conhecidas no arquipélago.
Mas porquê?! Que em Espanha façam as touradas à sua moda, por um lado é com eles e por outro sempre o fizeram. Mas nos Açores?! A que título?
Alguma coisa me escapa.

15 comentários:

kika disse...

Espero que o ZP intervenha!!
Não aprecio ,não apoio e acho que os Açores,não precisam desse tipo de espectáculo.Acho que contrasta e muito com aquela beleza e paz.
Onde já existe essa tradição, claro que é dificil alterar, mas tomarem iniciativas dessas no sec XXI é absurdo. È regressão civicional.

fj disse...

Tambem aguardo o que dirá ZP. Se realmente ha tradição, vai ser dificil mas...não pode ser.

josé palmeiro disse...

Ora bem, cá estou eu.
Já cá estive, ainda não havia ninguém, mas um erro meu, fez apagar o que tinha escrito e depois não tive paciência para o refazer, dado que havia outras coisas com prioridade.
Vamos lá ao tema, sem fugir ou ser "politicamente correcto". Sou alentejano, nascido e criado, no meio de animais e da "festa dos touros", razão porque sou dela adepto. Não sou, contudo, ortodoxo e admito que haja quem não goste e esteja contra, desde que tomem a mesma posição de não invectivarem quem dela gosta. Dito isto e marcada a minha posição, devo referir, e era esse o objecto do post, que a tradição das touradas, nos Açores, mais concrectamente, nas Ilhas, Terceira, Graciosa, S. Jorge e com menor expressão no Pico, remontam a alguns séculos, como o escrito que, seguidamente transcrevo, pode esclarecer: "A tradição das touradas na Terceira remonta ao séc. XVI, quer pela abundância do gado nessa época - mais de 100 000 cabeças, dizem os cronistas quer pela origem dos primeiros povoadores de províncias com tradição tauromáquica e a posterior presença castelhana. Justifica-se, assim, que as touradas tivessem permanecido na Terceira, única ilha dos Açores onde se realizam, durante séculos, e utilizem uma técnica perfeitamente adaptada às condicionantes locais, à perícia dos lidadores e ao gosto da população. Trata-se das sempre alegres e movimentadas “touradas à corda”, em que o touro tem os seus movimentos condicionados por uma corda, segura por um grupo de homens, antigamente chamados de “mascarados da corda”. Estalejam os foguetes e imediatamente começa os passes mais ou menos felizes que se destaca a já célebre “sorte do guarda-sol”, que consiste em abri-lo subitamente frente à rês e esquivar a cornada, enquanto o touro persegue os seus contendores e os homens de corda moderam o seu ímpeto, quando não são arrastados, ou, deliberadamente, dão-lhe um pouco mais de liberdade para animar o espectáculo.
A “tourada à corda” tem evoluído com a passagem do tempo, e uma das suas mais recentes manifestações - já com quarenta anos, pelo menos - são as touradas à beira-mar, nas praias e varadouros de barcos, em que todos, incluindo o touro, tomam repetidos banhos de água salgada entre as gargalhadas, os gritos e os assobios dos espectadores."
Fala-se aqui da popular "tourada à corda", mas deve referir-se também que a tourada, quer à portuguesa, quer à espanhola, é o ponto forte de todas as manifestações festivas dessas ilhas.
Entendo que assim as coisas ficarão explicadas, sem que defenda ou ataque, quer de quem goste, quer de quem não goste, direitos que cada um deve defender com argumentos válidos e não com ataques soezes, como é usual quando se fala nesse assunto.
Aqui, por respeito a todos, recuso-me a entrar por esses caminhos, deixando, contudo, bem claro, que gosto e apoio a lide do touro, em todo o contexto.

josé palmeiro disse...

Volto, porque não referi um ponto que, reconheço do maior interesse, no aspecto histórico. Vitorino Nemésio, grande cultor da literatura portugusa, amante da "Festa Brava" que tão bem retratou no seu mais importante romance, "Mau Tempo no Canal".

King disse...

Chego aqui muito tarde...
Sabia que nos Açores se usava esse sistema da «tourada à corda». È referido aqui em Portugal continental como sendo muito típico dos Açores. Não sabia que existiam essas outras formas todas.
Tal como a Emiéle, não sou fundamentalista, mas...
Ver um touro arrancar as tripas a um cavalo, quando nenhum dos dois bichos está ali por querer, com franqueza não faz o meu género. E também o «picarem» o touro, ou seja tirarem-lhe a força de propósito, cá para mim não me parece muito lal.
O que acho leal são mesmo as pegas. Aí sim logo se vê quem é mais valente
:)

josé palmeiro disse...

Olá King!
Não deixas de ter alguma razão, no que aqui deixaste, mas, neste momento esses momentos das tripas dos cavalos são raros, senão inexistentes. Quanto à sorte de varas, o exagero, dá razão ao que dizes, mas o bom senso, não o permite e é caso para dar muita troca de opiniões que, neste caso, é manifestamente inadequado. Mas que dizer das torturas infligidas aos pombos que se dedicam às provas columbófilas? Coisas que nem vos passa pela cabeça e é um desporto cheio de ternura...

zorro disse...

Ora cá temos uma divergência grande, o que é raríssimo encontrar aqui entre leitores do Pópulo.
Entendo o que diz o Zé, se lhe vem do passado, é algo de cultural, mas com franqueza não deixa de ser uma grande violência. O exemplo que cita do tiro aos pombos, honestamente é ainda pior. Nem entendo como se deixa que se faça, já não aprecio a caça quanto mais essa tão selvagem (os pombos depois comem-se?)
Claro que há dsportos que também não aprecio, comoo box por exemplo, mas é entre homens que o fazem voluntáriamente. Usar animais seja para o que for, não é coisa que aprecie.
Enfim, as corridas de cavalos, eles só correm, não é?... Mas as 'habilidades' dos animais no Circo também não faz o meu género. Sou coração mole...
:)

Pedro Tarquínio disse...

Subscrevo o comentário do Zorro. Sou contra touradas e qualquer outra forma de tortura gratuita a animais.

Saltapocinhas disse...

embora me custe muito admitir, talvez o cavaco tivesse razão, já que com o novo estatuto dos açores perdeu poderes para vetar essa monstruosidade!

eu também não gosto de tourada mas, ao contrário de ti, não aceito que haja quem goste.
E não me venham com conversas de treta. é uma barbaridade sem justificação!!

Saltapocinhas disse...

só agora li os outros comentários...
Mas continuo na minha: não há justificação para a tortura de animais, seja tradição seja o que for!!
e que tal restaurar a tradição da forca? e dos açoites nos pelourinhos? e da pena de morte??

André M. Palmeiro disse...

Não queria, de todo, entrar nesta querela, tanto mais que enquanto ex-actor da festa a que ora se alude, para a mesma não posso olhar com a frieza de um simples aficcionado ou a argúcia de um opositor.
Admito pois, que não se considere legítima a utilização de animais para fins, chamemo-lhe, lúdicos, mas a FESTA BRAVA, olhada como entidade provida de aspectos ritualistas e simbólicos, vai muito para além da mera concepção de espectáculo.
É, e sem entrar em demais questiúnculas, um sustentáculo cultural e identitário de fatia importante do território nacional e permite, de uma forma que vós podeis rotular de cruel, a preservação da espécie antanha do BOUS TAURUS PRIMOGENUS, o qual desde tempos imemoriais, redimensionou a condição humana de um modo que o mero raciocínio lógico-dedutivo não pode abarcar.
Em jeito de súmula, digamos que não se pode descontextualizar aquilo que não se conhece, nem ligar o fenómeno TOURADA a uma corja de iletrados inumanos. Há muito... infinitamente muito mais do que isso!
E, já agora, ressalvo-o enquanto ex-forcado, que a pega do touro como culminar de uma bela faena é das coisas mais sublimes e indefiníveis que existem; como remate de um "bailado" que quando, bom, atinge dimensões plásticas e estéticas incomensuráveis, enfim... quando os mandantes decidirem matar a TOURADA numa ânsia euro-cêntrica de uniformização sócio-cultural que tenham bem presente o facto de estarem a trucidar uma parte do país. Contudo, a controvérsia persistirá

Maria disse...

Não sou Açoriana mas o meu avô paterno era da ilha Terceira Passei férias na minha infância e juventude em casa dos meus avós e a casa deles era mesmo em frente à antiga praça de São João;convivi de perto com essa "tradição"embora não tenha ficado cativa.Mantenho contacto com a "ilha" e estou a par da "polémica"e são muitos os terceirences que não estão de acordo com a introdução da prática "sorte de varas",eu também não estou.Nem tudo que é tradição é de manter, mesmo que essa seja,uma coisa é manter outra é torna-la mais bárbara ainda.
Destaquei da notícia do Expresso isto,por achar pertinente.

(...)as "corridas picadas" melhoram a "qualidade artística" das touradas na ilha Terceira, atraindo e satisfazendo as exigências das grandes figuras do toureio mundial.(...)

kika disse...

Tanta cultura para explicar o inexplicável.Aqui já não me apetece rir e só lamento!

josé palmeiro disse...

Kika, às vezes é bom não se ser assim tão intolerante.
King, não me referia ao tiro aos pombos, não. Referia-me isso sim à columbofilia, soltas e corridas de fundo, com pombos. O tiro é demasiado óbvio.
Raposinha, já sabia que não gostavas, terás as tuas razões, que respeito, mas eu gosto de ti! És uma boa amiga e o facto de eu gostar da "festa brava", em nada me impede de gostar de ti.

Emiele disse...

Bem, quando escrevi o post, estava a pensar até mais na minha amiga-visitante AB, que creio também gostar da tourada como festa. Mas devia calcular que eram as costelas alentejanas e aqui o Palmeiro também a acompanhava.
Não calculei que tivesse tantos comentários...
Vamos ver, o existirem outras crueldades não justifica que se apoiem as que estamos a ver. Sem dúvida que se cai em argumentos exagerados muitas vezes de lado a lado, mas...
Quanto à dita Tourada à Corda conheço bastante bem, porque na aldeia onde passo férias havia um costume que era exactamente nas Festas da terra, levar-se um boi por esse sistema, até ao Largo da Vila, e aí matava-se o boi. Antes que se escandalizem, acrescento que o animal era morto para depois ir para uns panelões enormes onde se guisava e no dia seguinte dava-se um «bodo aos pobres» das redondezas, num 'banquete' presidido pelo «Imperador» acabado de coroar, que era uma criança da aldeia.
Um costume completamente medieval, como vêem.