segunda-feira, abril 20, 2009

O pastor e o lobo

É muito velha a tal história do pastor que se divertia a gritar que vinha ali um lobo, quando tal não se passava e no dia em que apareceu um lobo de verdade ninguém acreditou nele.
E, se também acontece que «uma mentira muitas vezes repetida se torna verdade», por outro lado, algumas verdades excessivamente banalizadas perdem a importância.
Ando a pensar nisso por causa dos ‘estudos’ com que nos inundam, que provam tudo e mais alguma coisa. Se uma semana aparece um «estudo a provar A» na semana seguinte, outro laboratório, (ou quiçá o mesmo!) vem provar o anti-A com argumentos tão fortes como os do primeiro. O que dá como resultado que às tantas não se acredite em coisa nenhuma!...
Isso é particularmente verdade no que trata da alimentação. Nunca se falou tanto em boa alimentação e, pelos vistos, segundo os tais «estudos» come-se muito mal, tudo faz mal ou bem...
Aí há uns 8 dias ouvi, no rádio do carro, uma entrevista a um senhor. Não fixei o nome. Era pessoa com muitos títulos, investigador de um laboratório desses que fazem «estudos», muitos estudos. A questão ali debatida era o café.
Durante um bom bocado falou-se dos benefícios do café, e do disparate que é haver receio de beber café. O senhor em questão, professor, até ridicularizou os seus alunos médicos que ao descreverem um caso diziam que o doente fumava e bebia café, porque se o tabaco era comprovadamente perigoso nada indicava que o café fizesse algum mal. Nada de nada. Obviamente que se tomado em excesso, como qualquer alimento, mas apenas isso.
Senti-me contente quando ouvi ser a fama completamente injustificada - explicou até aos pais que estavam a ouvir a emissão que tanto fazia ao ir a uma pastelaria com uma criança, pedir 2 bicas para os pais e um chocolate para ela, ou 1 bicas para cada pessoa. O resultado para o organismo era igual.
Fiquei espantada mas satisfeita, porque se não fumo, aprecio muito o café e senti-me justificada, apesar de um tanto surpreendida.

Até que, já no fim da conversa, o entrevistado reconhece que aquele estudo em particular tinha sido encomendado... por uma marca de café.
Ups!!

10 comentários:

King disse...

Essa tua observação só confirma o que ou sabemos ou suspeitamos - a grande maioria destas informações do que faz bem ou faz mal, é «patrocinada» por quem tem interesses económicos na coisa.
Para além de duas ou três coisas - os benefícios da cozinha mediterrânea, se reduzirmos ao essencial - e afinal é não se comer MUITO de nada, tudo o resto acaba por ser propaganda a uma coisa ou outra...

Essa do café, creio que também ouvi. Já foi na semana passada, e também sorri quando o senhor disse que era um preconceito como outro qualquer porque uma criança de 5 ou 6 anos podia acompanhar os pais e tomar a sua bica ao balcão, nada de mais natural... Dizia que a cafeína era um estimulante, é certo, mas qual o mal de se estar estimulado?...

A gente ficava mais convencido de o estudo tivesse sido patrocinado por um produto bem diferente.

josé palmeiro disse...

É um jogo de interesses enorme, alicerçado num falta de carácter que esta crise e consequente ânsia de dinheiro, lucros fáceis, não pode justificar. Esse doutor é como muitos doutores que, carácter, não é com eles, tal como muitos engenheiros e de todas as profissões ou formações.
Cpmer bem significa, acima de tudo, ter de comer. Depois tendo de comer, comer sim mas com parcimónia, sem excessos, e olhar muito bem para dentro, para os sinais do nosso corpo, que nos diz o que devemos e oque não devemos comer, dado que não somos todos iguais. Mais uma de bom senso e de contenção, porque comer demais, faz mal. Não esquecer de acrescentar o factor TEMPO, absolutamente necessário, para uma boa alimentação.

sem-nick disse...

Eu queria sublinhar o teu título.
É mesmo isso que me rala um pouco. À força de não se ligar por a informação ser vulgarmente «manipulada», ainda deixamos escapar coisas que seriam bem importantes mas já se dá desconto por pensarmos que são como o resto - fogo de artifício.


O Zé tem razão. Primeiro demos ter capacidade para se comprar o indispensável. Depois saber confeccionar as coisas ( o que cada vez se sabe menos, é o reino do pré-cozinhado) e também não comer «demais». se há tanta gente obesa, é porque comem mal - as gorduras e doces - mas também porque comem muito com certeza.

Joaninha disse...

Tal e qual.

Já nem se liga ao que dizem esses «estudos» e fazemos mal.
Mas falo por mim, reconheço que não ligo.

Tal e qual o pastor e o lobo.

AB disse...

Se por vezes os estudos de mercado e de opinião bem como outros,qualitativos,servem os interesses de quem os encomenda, por vezes são fiáveis.Isto porque há uma regra fundamental nestas coisas do marketing.Nada é mais fatal a um produto do que ele não corresponder à sua "promessa".Os efeitos que os componentes de um produto podem ter na saúde publica,se são bons podem fazer parte da mensagem publicitária.Se existem "defeitos" estes devem ser comunicados pelas marcas aos centros de estudo para que possa ser avaliado o impacto.Isto serve para explicar que os estudos não PODEM dizer que uma coisa faz bem quando faz mal.A isso não chegam.,Agora há laboratórios que podem falsificar resultados e isso ainda é outra coisa.Agora considero normal que uma marca queira saber exactamente aquilo que põe a consumo e isso não é patrocinio...Pode haver neste post alguma confusão de conceitos é o que eu quero dizer com isto tudo.Aliás uma colherinha de café a um miudo pode ser menos nociva do que uma Coca-Cola,que além da cafeina tem açucares,gás,e mais uns ingredientes que a fizeram tão apetecida quanto odiada e até proibida.AB

snowgaze disse...

Fizeste-me lembrar um artigo da visão desta semana (acho que nem vinha assinalado como publicidade, pelo menos parecia um artigo normal) em que se dizia que o gás das bebidas não engordava. Quando se chegava ao fim, lia-se que isto se baseava num estudo encomendado por empresas que produzem ou vendem bebidas gaseificadas... Não digo que não seja verdade (muito provavelmente o problema está é na grande quantidade de açúcares que estas bebidas levam), mas pareceu-me um gato escondido com o rabo de fora... (e claro que não falavam em nada sobre o açúcar, o estudo era dirigido especificamente ao efeito do gás na obesidade)

kika disse...

O nosso corpo sabe o que lhe convém, pois reagimos a tudo que ele não aceita.
Comigo é assim e penso que com a maioria das pessoas.

josé palmeiro disse...

Como eu me lembro daqueles sábados em Estremoz, teria eu os meus 5 ou 6 anos e o meu avô Armando me levava ao mercado. Depois das compras feitas, rumávamos ao Café Rossio e aí eu tomava, sempre, um "garoto" clarinho a acompanhar o "brinhol". Nunca me fez qualquer mal!

Emiele disse...

AB, naquilo que escrevi não pus em dúvida que o estudo fosse correcto. Nota que logo na segunda frase escrevi «algumas verdades excessivamente banalizadas perdem a importância», o que presopunha que acreditava. O que aqui estive a por em causa não foi a decisão de o produtor de qualquer coisa mandar analisar o seu produto (o que só lhe fica bem) nem de o laboratório proceder ao estudo que lhe é encomendado. O que censurei, por um lado, foi – na minha opinião – o excesso de pesquisas sobre alimentos, o que nos faz chegar a conclusões contraditórias, muitas vezes; por outro, o modo como naquela vez a coisa foi apresentada, o ‘tempo de antena’ gasto com o tema e o modo laudatório como o produto foi citado.
Aliás um adulto informado sabe que a coca-cola também contém essas substâncias (que aliás o entrevistado referiu) e se falei no caso das crianças foi porque isso foi bastante referido entre risos, e não se falava numa «colherzinha», ou num «garoto», falava-se num café normal.
Zé Palmeiro, quando o meu filho era pequenino, um fim-de-semana que passou com o seu padrinho e a namorada, veio muito divertido porque tinham ido ao café e ele tinha tomado «café de menino». Durante muitos anos, cá em casa, dizíamos «café de menino» como sinónimo de ‘garoto’, ficou como graça. É completamente diferente de uma bica a sério. AB e Zé Palmeiro, este senhor (e acredito que científicamente tenha toda a razão) equiparou o café ao chocolate. Como até acreditei, isto leva-me a pensar é que devemos ter mais cautela com os chocolates! Sniff...
Por outro lado, é certo que ele disse que cada pessoa é diferente, mas se o café é um estimulante parece-me de bom-senso que cada um avalie bem as suas necessidades e capacidades! Ora essa mensagem não me parece que tenha passado naquela meia-hora de conversa.

Emiele disse...

Ena, deixei um lençol tão grande que tenho de repartir as respostas!
Snowgaze, é praticamente a mesma coisa. A tal entrevista chocou-me mais talvez porque as coisas ouvidas Têm mais impacto e o senhor puxou muito pelos galões. Aceito bem, como diz a AB que eles não podem dizer mentiras, porque seriam apanhados, mas talvez se possa dizer 'parte da verdade'. Quando 82% dos dentistas recomendam determinada escova ou pasta de dentes, se calhar também recomendariam outra escova e outra pasta desde que fosse boa. O importante deve ser lavar bem os dentes com uma boa escova!
Kika, tu tens sorte, mas olha que não deves generalizar... é verdade que muitas vezes «enjoamos» coisas que nos fazem mal, mas nem sempre. Recorda a expressão popular «perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe». Só se pode dizer isso porque até há coisas que sabem bem mas... não fazem assim muito bem. Para não ir muito longe, um alcoólico e a bebida...por exemplo.