terça-feira, abril 21, 2009

O leite


Uma das Histórias contadas no «Histórias de Embrulhar Castanhas» - um blog engraçadíssimo, - fez despoletar uma recordação da minha infância.
Quando eu era pequenina, a esmagadora percentagem do que se comia era feito em casa. Para além da comida propriamente dita, a que se punha nos pratos, ( e não havia cá batata frita dentro de pacotes, ou fosse o que fosse ‘pré-cozinhado’...) todas as compotas com que barrávamos o pão também se faziam na nossa cozinha e até alguns licores da garrafeira.
Os meus pais tinham uns frascos muito grandes com o bocal largo e deitavam para lá 'umas coisas' que ficavam meses em repouso até que, depois de umas alquimias, passavam para uns frascos de cristal e eram licores.
Eu era criança e não ligava grande importância àquilo.
Mas havia um que cheirava muito bem. Enquanto estava lá de pousio dentro do frasco, e era agitado de vez em quando, eu não lhe ligava nenhuma. Mas na fase final, a mistela do frasco grande era coada para garrafas bonitas por um funil forrado com um filtro de papel. E isso fascinava-me. Por um lado achava mágico como o produto acastanhado e baço do frasco grande, depois de passar por esse tal coador ficava um líquido transparente lindíssimo, que me parecia oiro líquido! Por outro lado, como o processo dessa filtragem era demorado, durante mais de um dia a minha casa ficava a cheirar a chocolate.
Sim, porque aquilo chamava-se «Licor de Leite» mas a receita que lá usavam levava chocolate e esse cheiro é que ficava no ar...
Até que um dia, não resisti! Quando não estava ninguém em casa, e lá no filtro de papel já se acumulava uma boa dose daquele produto acastanhado que cheirava tão bem, estendi o dedo e lambi um bocado.
Huuummm! Que delícia. Sabia-me a chocolate e mais algo que não sabia definir. Tinha de ver se percebia bem o que era, e toca a rapar mais um bocado com o dedo. Bem... se era «de leite» era bom para meninos, não era?... Portanto voltei a comer mais uma ‘dedada’ que me fazia sentir com vontade de rir apesar de as paredes à minha volta começarem dançar.
Resumindo, não sei exactamente em que momento é que adormeci com o dedo e a boca ainda lambuzados daquela delícia que parecia ficar desperdiçada no funil. Só muito mais crescida é que entendi que se aquilo levava um tanto de leite, levava a mesma porção de álcool... que eu estive a comer à colherada dedada!


16 comentários:

sem-nick disse...

Um post giríssimo!
Ainda bem que fiz a ronda como deve ser e comecei debaixo - terminei a sorrir!!!

King disse...

:)

Imagino bem que ganda bebedeira!!!! Aquilo devia estar mesmo concentrado.

josé palmeiro disse...

Pois é, resíduos de licor de, deixa-me adivinhar, leite?
Dido isto prque aqui em casa, ainda se fazem e leva chocolate, na dita infusão.
Já agora aproveito para contar que quando casamos a minha mulher levou as receitas dos licores e resolvemos fazer licor de leite. Como dizia álcool, assim pusemos. Só onze anos depois o licor estava capaz de tomar, porque o álcool usado para fazer o licor, não era o mesmo que para curar feridas...

Joaninha disse...

Boooaaaa!!!

:)

Imagino a cara dos teus pais!?!
Zé Palmeiro, aqui a Emiéle é tão atenciosa que no link que diz mais ou menos «a receita que lá usavam levava chocolate» é exactamente para uma receita de licor de leite!!! e deve ser aquela a que ela se refere porque entra o dito chocolate e o tal álcool que aqui também não diz de que qualidade é.
Se não avisasses eu também lá metia álcool puro da farmácia...

Maria disse...

Emiliéle,"(...)daquela delícia que parecia ficar desperdiçada no funil(...)"a minha mãe fazia um bolo delicioso.
A sua história despertou-me os sentidos, avivou a minha memória de infância e fez-me recordar, com saudade, a minha mãe - bendita "alquimia das palavras"-.
Obrigada e um bom dia.
Maria

zorro disse...

A história é giríssima, mas os teus comentadores, Emiéle, um tanto espaçarados...

O Zé diz que vai «adivinhar» que era licor de leite quando ela tem lá escarrapachado «aquilo chamava-se «Licor de Leite» , e depois a Joaninha chama a atenção para o link, (OK) mas sem reparar que o nome já lá está!
De qualquer modo, tenho ideia de que essas sobras davam para um pudim ou coisa dessas... Se calhar era um bolo como disse a Maria. Tenho uma ideia muito vaga de na minha casa também se fazerem licores...

fj disse...

Girissimo realmente. Ainda bem que permaneceu só o gosto pelo chocolate!

AB disse...

Havia lá em casa uma outra forma de fazer licores.Passava-se um fio pelas frutas que ficavam penduradas e gota a gota o sumo caia pelo fio para uns recipientes.Dependendo da fruta a côr era violenta ou suave e as janelas da cozinha que eram meias luas quasi junto ao tecto com enormes vidraças davam a tudo aquilo um ambiente mágico.Depois passava-se para frascos de cristal,sim.Lembro-me de olhar de baixo para o móvel de canto onde tudo aquilo se passava e de achar aquela espécie de ampulheta colorida(leva tempo o pingo a despegar-se e a cair)uma perfeita maravilha inatingivel.AB

kika disse...

Essas recordações são fascinantes.
Olha que eu com algo muito semelhante fiquei a cambalear e a mãe que não sabia do que se tratava pegou em mim ao colo e fui parar ao consultório do médico, que fez o diagnóstico muito rápidamente . A vergonha foi tal que nunca mais.. teria cerca de 4 a 5 anos, mas nunca esqueci aquela cadeira onde o médico me sentou.

josé palmeiro disse...

Todos os que entraram comigo, estão carregadinhos de razão, mas eu, não vi, juro!
Só agora que dei por aqui uma volta me deparei com isto. Creiam que escrevi o que escrevi, sem dar atenção ao título, do escrito.

Maria disse...

O Zorro esteve muito bem na sua apreciação dos comentários; eu baralhei-me toda no nome da Emiéle; não sei se o Zorro nos queria chamar despassarados ou "despaçarados" como disse;a Joaninha não percebeu,como diz a receita, que deve usar exactamente álcool puro a 90% o outro para fins terapêuticos é a 70%, e tem outros componentes não ingeríveis (ambos se podem vender na farmácia).O Zé Palmeiro disse que esperou 11 anos para beber o licor...

Cara Emiéle,"Licor de Leite" ao mata bicho.... nunca, nunca,nunca mais!....(com música)

Maria disse...

:)
Peço desculpa o Zorro disse "espaçarados" (e eu não percebi)

josé palmeiro disse...

Exactamente Maria, onze anos. Até então era um odor a álcool puro, que metia medo, depois, não havia gripe que resistisse.
Maria, ao mata-bicho?, não, ao serão, depois do jantar, para se ir para a cama já meio adormecido...

zorro disse...

Olá, Maria!
(cá estamos nós a conversar tipo chat, outra vez, este blog ajuda)
A mão à palmatória. A expressão que eu procurei era mesmo «despassarados» mas isto de escrever a correr tem destas coisas - associei ao 'espaçar' mas claro que deriva é de pássaro!!! Eu é que andei despassarado... :)
Pensando no 'mata-bicho' devia ser licor de café com leite...

Não sabia essa do álcool. Por acaso calculei que o da farmácia não desse para beber, mas não entendo nada dos álcoois metílico ou etílico ou lá o raio... Lembro-me de um álcool azul que na minha casa se usava na lamparina que se acendia debaixo do balão da máquina de café.
:)
Quando o café era feito em balão de vidro e não era 'nespresso'
(deu-me para aqui! uma de saudade; foi por causa dos licores caseiros!)

Maria disse...

Olá Zorro!
O álcool azul é o desnaturado que na sua composição tem metileno, daí a cor azul,usava-se muito para o fim que mencionou, era mais barato.
De Álcoois percebo eu;hah, hah,..
Boa Noite.

Emiele disse...

Meus caros, ontem não dei a minha volta por aqui ao fim do dia, porque me deu uma dor de cabeça que não deixava ver nada a direito...

Teve graça este post ter tido tanta aceitação :)
E ainda por cima foi tal e qual como contei. Hoje não teria paciência, mesmo tendo tempo para isso, de me pôr a fazer licores...

A Maria deu umas explicações excelentes. Também não sabia.
A recordação da AB é muito «visual» e imagina-se que esse ritual lhe deve ter ficado na memória.