quinta-feira, dezembro 11, 2008

A pé

O autocarro estava parado a fazer tempo para o início da carreira. O condutor lia um jornal gratuito e eu perguntei se já podia entrar e sentar-me – sempre se estava lá mais quente.
No banco da paragem estavam 3 ou 4 adolescentes, alunos de uma escola próxima. Conversavam em vós bem alta e eu lá dentro ouvia tudo. Às tantas um perguntou ao outro, agradecendo a companhia, mas porque é que ia de autocarro para casa, se morava ali tão perto. «Tás parvo, meu! São umas duas paragens. Aí uns 10 minutos a andar!...»
Eram miúdos espigadotes, de 14 ou 15 anos.
Foi impossível não fazer a ligação com a conversa que tinha tido ainda na véspera, com um senhor dos seus cinquenta e tal anos que me contou ter começado a trabalhar com 12 anos. Perante o meu ar escandalizado, ele apressou-se a dizer que não, não, para ele aquilo não era nada demais. Na sua aldeia todos começavam a aprender um ofício com aquela idade, logo depois da escola. Eram aprendizes. No seu caso aprendiz de carpinteiro, tinha por obrigação ter as ferramentas afiadas, as coisas arrumadas, limpar a oficina, e fazer uns trabalhos simples. Não se sentia nada «explorado».

Mas acrescentou: «Só me custava o caminho para lá. Eram perto de 10 quilómetros a pé, de inverno saía de casa era noite escura e aquele caminho fazia-me um bocado de medo».

E eu a ouvir aqueles adolescentes, com ténis de boa marca que torciam o nariz a andar dez minutos...

O mundo tem mudado, oh se tem!


18 comentários:

Miguel A. disse...

Pois, era normal. Os meus começaram com 11, e só pq se entrava para a escola, naqueles tempos, com 7 anos, senão, teria que ser aos 10...

Anónimo disse...

Volta não vira dás uma de neorealista de serviço.E a referencia é sempre os ténis de marca...(aqui para nós é para isso que a contrafacção existe),.Mas quem é que te manda andar de transportes públicos?Anda de taxi (dizem para ai que sai mais barato)e já não há mais Lafontaine para ninguém(isto para voltar a outro clássico e fechar o capitulo Grécia-nem queiras saber o que lá se usa de ténis de marca).AB

AB disse...

Anónimo sou eu que o meu PC fez a birra do costume.AB

king disse...

Contrastes, não é?
O curioso é tu acentuares (e também tenho essa ideia) da força do sentimento colectivo. Esse senhor, na sua juventude (infância?) não se sentia discriminado porque todos os seus colegas e amigos passavam pelo mesmo. Mas 10 km é muito para se andar a pé!!!
.......
Quanto aos putos de hoje, também acredito na tua história. E o giro é que depois vão fazer futebol ou natação para queimar energias; mas não vão a pé para casa!

Emiele disse...

Olha, mal abri o tasco e já tenho visitantes!...

AB - Não é nada neorealista, estas duas histórias o mais verdadeiras possível, vieram encadeadas, exactamente porque se passaram em dois dias seguidos. E falei nos ditos ténis (se tinham ou não marca foi para brincar) para dizer que penso que seriam melhores para andar que as botas caneleiras do meu aprendiz de carpinteiro da véspera...

Miguel A - Realmente há 40 ou 50 anos isso passava-se sobretudo nas aldeias. Era o «ensino técnico». Apesar de tudo fiquei admirada porque na altura havia 3 graus de ensino a seguir à prima+ria: o 'liceu' para quem queria continuar os estudos e os pais tinham algum dinheiro. A «escola comercial» para quem não ir continuar os estudos mas queria uma profissão não-manual. E a «escola industrial» onde se aprendiam mesmo profissões práticas - electricista, marceneiro, serralheiro, etc.
Mas nalguns casos os pais precisavam mesmo que os filhos não gastassem nada e até contribuíssem com algum.
King - é isso. Achei piada o desdém de andar 10 minutos, quando um pouco mais tarde iria correr num campo desportivo, por exemplo.

sem-nick disse...

Eu então gosto muito deste teu tipo de posts!
Não diz nada de muito novo? Se calhar não. mas vem ao encontro da nossa vida de todos os dias e faz lembrar tanta coisa que estava esquecida (ou em stand-by?). A verdade é que a vida nas nossas aldeias mesmo já no nosso tempo (quando digo nosso tempo não é hoje, é quando eu era criança, há umas boas dezenas de anos...) parece ter-se passado num outro mundo que não tem a ver com Lisboa.

sem-nick disse...

Ah, e claro que também apreciei esse aspecto de «fábula» que a AB refere. O «preto e o branco» do contraste. Nem tanto ao mar (trabalhar-se aos 10 ou 12 anos e ter de se andar a pé quilómetros para ir à escola ou ao trabalho), nem tanto à terra de não se estar disposto a andar a distância de duas paragens de autocarro!!! Depois há campanhas contra a obesidade...

RS disse...

Também gostei do texto.
Tu tens de facto dois estilos.
Este post está escrito de um modo diferente dos outros debaixo! Parece que tiveste mais cuidado a escrevê-lo.

josé palmeiro disse...

Pois bem, eu próprio andei numa escola que ficava a cinco quilómetros de casa e, enquanto não apareceu uma bicicleta, ia a pé. Nem por isso, deixei de crescer, até até, o que eu via pelo caminho... Ainda por cima era um caminho rural, que maravilha. depois havia uma pedreira que no inverno enchia de água. Que bela piscina...

kika disse...

Achei graça ao relembrares este mundo de contradições, mas o comodismo destes adolescentes é irritante , já se mexem tão pouco devido aos computadores etc e ainda se dão ao luxo de utilizar autocarro por duas paragens.Quem lhes dá o dinheiro? Mais uma vez os pais a cederem aos meninos , coitadinhos...

Anónimo disse...

Emiele, os meus pais são os 2 do centro de Lisboa, com 65 e 61 anos respectivamente.

Com 11 anos incompletos, o meu pai era aprendiz de canalizador e a minha máe de modista.

Não era só ns aldeias, atenção...

Miguel A. disse...

Saiu anonimo nem sei pq.. fui memu eu a escrever... lol

Nós, Os Cachorros!!! disse...

Amiga, estou aqui só para lhe dizer que mudei finalmente de casa...
O Spaces já estava me deixando doido com tanta burocracia...
Quando puder visite nossa nova casa que foi deletada e recriada... rs
É que foi dificil tomar coragem pra começar tudo de novo... rs
Abraxos

kika disse...

Emiele deculpa a minha intromissão no teu blog , sem ser para comentar, mas já leram a cronica de hoje do RAP (na visão)? Está o maximo!!!

Emiele disse...

Miguel (respondo só a ti porque estou um pouco à pressa; logo volto com mais respostas aos outros visitantes) - Na minha categoria de posts «Era uma vez...» tenho muitos chamados «Um Caderno de Capa Castanha» onde se entrevista uma pessoa nascida no início dos anos 40. Nasceu e viveu em Lisboa. Lembro-me quase de certeza que uma das histórias que contou, foi exactamente ter feito a 4ª classe e depois dali ia frequentar um liceu, mas tinha colegas de aula que não iam estudar mais. Isso chocou-a já nesse tempo. Contudo, primeiro os teus pais são mais novos do que ela, e segundo este senhor a que me refiro neste post é ainda mais novo que os teus pais, é homem de cinquenta e poucos. Nessa altura, eu imaginava que realmente só em sítios afastados é que as crianças começassem a trabalhar tão cedo.
E, reconheço que estava enganada. O meio social da minha «testemunha» desses anos - a do Caderno - era com certeza diferente e a sua perspectiva também. E eu fui atrás disso...

Emiele disse...

Olá!
Agora já tenho mais tempo e calma para respostas.
Kika, uma sugestão dessas é sempre bem vinda. Nem sempre os cpmentários têm a ver directamente com o que se diz, tanta vez que uma coisa conduz a outra e às tantas já se fala de um assunto bem diferente :D

Amigo Cachorrinho, assim o teu blog está muito mais acessível. Tu gostas mesmo de animais, heim?! :) Eu também, com excepção de certos insectos, chamados baratas... Gnhag!
Zé Palmeiro a bicicleta quando se é miúdo é formidável para irmos à escola. A minha adolescência foi passada numa terra onde todos tinham bicicleta menos eu, e iam para o Liceu a pedalar e eu a pé!!! Mas era tudo muito perto :)))
Kika, os miúdos devem ter passe social que é barato para estudantes. A questão até nem é essa é a postura em si. Repara que aquele dizia sobranceiro que dali até a casa ainda eram uns bons 10 minutos a pé, mas depois é capaz de chagar os pais para lhe pagarem aulas de karaté, ou de um desporto qualquer... A atitude é que me impressionou.

RS - obrigada pelo teu 'olho crítico' :) De facto quando escrevo este tipo de histórias faço-o com um pouco mais de cuidado, sim! És um bom observador.

Saltapocinhas disse...

um exagero, esta malta!

às tantas vão para o ginásio de carro também!

o meu filho quando andava na universidade só ia de autocarro quando tinha aulas logo de manhã.
para casa vinha sempre a pé, e são mais de 4 km!

Emiele disse...

Estás a brincar, saltapocinhas, mas é exactamente assim! Conheço gente, que até mora perto do ginásio e vai para lá de carro. Ainda por cima, depois tem de o deixar longe!
lol!!!