terça-feira, março 18, 2008

A velhice

É hoje tema quer no JN, quer no DN.
Creio que o interesse foi despoletado mais uma vez pelo tal ‘eurobarómetro’ que mede tudo e quando dirige o seu foco numa determinada direcção as pessoas parece que ‘acordam’ para os problemas.

Esse tal inquérito que nos vem dizer que «29% de pessoas entre os europeus antevêem ser pouco provável precisarem de ajuda quando envelhecerem» informa também que a pergunta foi feita abrangendo todas as idades e a gente muito nova nem pensa no que vai ser quando envelhecer…
Mesmo assim, os outros 70% prevêem que virão a precisar dessa ajuda.

E em Portugal,
até se receia que os mais velhos venham a ser vítimas de maus tratos - note-se que a noção de maus tratos não implica apenas agressão, pode muito bem ser abandono, indiferença, ausência quando quando a presença é necessária.
Por outro lado, os cuidados profissionais, são caros. Muito caros para aquilo que se ganha na nossa terra. Se
apenas 31% dos europeus considera que a assistência a idosos está acessível a um custo razoável, e em Portugal como noutros países, quase metade das pessoas admite que serão elas a pagar futuras despesas, a aflição é ‘como o vai fazer’.
Dizem que muito poucos admitem a venda da sua casa para esse fim, mas a verdade é que mesmo que o façam, essa verba muitas vezes dará para uns 10 anos de vida. E depois?...

Ainda por cima
nós somos um dos países mais críticos em relação aos serviços prestados a idosos pelos lares e cá teremos as nossas razões.
O que fazer?

Eu conheço vários casos que foram desde esse internamento no Lar - o melhor que a família conseguiu - ao tratamento em casa por familiares com um sacrifício que só quem assiste pode avaliar, ao ficar na sua casa com o apoio de um profissional pago.
Todos difíceis.
Todos dolorosos.
E nós a pensarmos porque é que a «esperança de vida» aumentou tanto quando afinal é para uma vida sem esperança?


13 comentários:

Anónimo disse...

Aí antes dos 40, a ideia da velhice anda mais distante do que Marte. Por acaso a tal questão da reforma (que quando eu era nova também era atirada para trás das costas) agora já há quem pense um pouco nisso, mas também não sei se pelo marketing das seguradoras, etc. Mas pensar que um dia vamos ter a idade dos nossos pais e até avós, isso não.
Entendo portanto muito bem que verca de 30% pense que não precisa de ajuda para nada. Até acho o número baixo, devia ser mais alto...
Evidentemente que, quando a vida avança as coisas tomam outro aspecto. Por diversas razões conheço o apoio que se dá nos países nórdicos, bem... isso é que é Marte. Aqui da Terra, aquela onde eu vivo, não é de certeza!

Anónimo disse...

Pronto! cá de ter de voltar cá mais logo. O que queria dizer leva tempo a pensar e a escrever.

Rita Inácio disse...

Olá Emiele!

Tenho andado a estudar este tema, mas numa outra vertente!
O que fazer com as escolas que fecharam ou irão fechar?
O estudo tem ido muito ao encontro de criar centros de actividades para idosos, integrados com a população.
A maioria das escolas encerradas são em áreas rurais, onde a população envelhece vertiginosamente,... sendo assim, a ideia é tornar as escolas em centros de integração para idosos, onde haveria 3 áreas. Uma para idosos com as suas capacidades totais, outra para casais de idosos, e outra para idosos acamados..., a ideia era criar postos de trabalho em áreas distantes de tudo, criar condições humanas para aqueles que nos ensinaram a ser quem somos, criar relações com a população residente,..., dar actividade ais que ainda podem ter.
Este estudo é no âmbito do mestrado que estou a realizar. E temos discutido muito, porque afinal são imensas escolas que encerraram ou vão encerrar.
Penso que seria um bom contributo para a sociedade, e era algo que só ficava bem ao estado realizar.
Por exemplo, todos esses espaços necessitavam, pelo menos de um enfermeiro, o que ajudaria, muito, a dar emprego a quem não o tem.
E desde de aulas para idosos, entre outras actividades, pessoalmente, vejo oportunidades para o país. Por um lado, só temos a aprender com eles, por outro ajudaríamos a que o resto de vida fosse digno e feliz.
Gostava de pensar que isto não é um desejo utópico!

josé palmeiro disse...

Antes de mais, o gosto de ter a Rita Inácio por cá e salientar a sua proposta, aprovo.
Bem, eu caminho inexoravelmente, para a velhice e só o facto de ter uma família muito estruturada e amiga, me dá alguma segurança, pois caso contrário, estaria bastante apreensivo.

Anónimo disse...

Há qualquer coisa nas propostas "exclusivamente"para idosos ,ainda que as mais luxuosas ,como as das "aldeias" de reformados nos EUA,que me repugna porque me remete sempre para a guetização.Lembro-me de uma coisa muito bem sucedida em Boston onde toda a gente convivia com toda a gente-mas não era toda a gente, porque se tratava de residencias universitárias,onde a componente cultural era condição sine qua non.Logo aqui...Claro que se pensa na velhice tanto mais quanto mais nos aproximamos dela e na morte idem.Se há causa que me motivaria a fazer ainda uma militancia seria a da luta por uma morte digna ou seja pelo suicidio assistido.AB

Anónimo disse...

Volto cá, como tinha pensado, e encontro um belo «comentário» da Rita, de modo que quase me apetece 'fazer agulha' noutra direcção...
Mas o que queria dizer é que creio que há hoje pouca gente que não seja sensível a este problema. Uns porque se sentem aproximar do momento em que vão depender de outros, muitos, porque já lá estão, muitos outros porque têm a seu cargo resolver o problema do pai, avô, tio, padrinho (ou o seu feminino, é claro) e ainda mesmo os tais muito jovens, porque vêm os seus pais preocupados exactamente a resolver essa questão dos familiares, muitas vezes desesperados por não saber como.
Há umas dezenas de anos, quando as famílias alargadas viviam em conjunto, arranjava-se sempre espaço para uma avó, uma madrinha, uma tia-avó, até porque as mulheres não trabalhavam fora de casa e havia o auxílio de alguns familiares - parentes afastados com pouco dinheiro - que ajudavam a tratar dessas pessoas mais velhinhas.
Para além disso a esperança de vida era realmente muito mais baixa. A medicina estava menos evoluida e morria-se depressa, com apoplexias como se dizia, ou de pneumonia, ou de infecções variadas porque havia muito menos antibióticos.
Hoje, os casais trabalham os dois, e a atenção que podem dispensar vai todas para os filhos. É impossível cuidar ainda por cima de um velhinho, senil, confuso, incontinente, a precisar de dietas especiais. Impossível.
E vêem os Lares. A verdade é que os acessíveis do ponto de vista económico, quase que só têm vaga quando alguém morre... e há os privados, que custam o ordenado de um técnico superior!
Conhecem a solução para este problema?
Eu não.

Anónimo disse...

Esqueci-me de tocar ainda num ponto, Joaninha: realmente até conheço quem tenha mesmo vendido a casa onde vive para depois pagar a estadia no Lar. Muito bem, dá-lhe para uns 10 anos.
E se, por capricho da sorte, não morrer até lá? É então, aos 90, que sem dinheiro e já mais velho ainda vai mudar de sítio? E para onde?

Anónimo disse...

É verdade, RS. Há para aí casos desses, de pessoas que "esperam" morrer antes de se lhes acabar o dinheiro...
O projecto da Rita é interessante. De facto uma terra com um envelhecimento como a nossa, quando as escolas ficam vazias, era sensato dar-lhes ocupação. Mas, sou muito cínica, e acho que o mais difícil nem são as instalações, é exactamente pagar ao pessoal. Reparem como nos lares, mesmo privados, o apoio está reduzido ao mínimo... Muitas vezes insiste-se em por uma fralda aos velhotes só para não ter de os ajudar a ir à casa de banho. E é uma pena um projecto tão bem intencionada, depois não ir avante por não arranjarem dinheiro para pagar aos auxiliares. ( já nem falo no luxo do enfermeiro, Rita!)

cereja disse...

Este post arranjou comentários maiores do que ele. Ainda bem.
Entendo a Rita, e a ideia seria boa mas, sem querer ser desmancha-prazeres, também penso como a Joaninha que o mais complicado vai ser não arranjar gente, isso arranja-se, conseguir pagar-se-lhes é que.....
A AB, também põe bem a questão - a verdade é que desde que não estejam acamados e nesse caso é mais um problema de casa de saúde quase, as pessoas de idade se são separadas do «resto da população» acaba por se parecer um guetto. Pode ser mais prático, mas menos humano.
De resto, tenho experiências que parecem tiradas a papel químico do que a Joaninha e a/o RS contam.
Porca miséria!!!

Mar disse...

Este post e os comentários subsequentes mexeram comigo porque é uma área que me toca em termos profissionais e que nos toc a atodos em termos humanos. Também tenho uma mãe com 71 anos e que espero que viva muitos mais, muito autónoma e aida dinâmica (às vezes mais que eu) e questiono-me o que será de nós quando já não fôr assim..
Da minha experiência com idosos e daquilo que sei sobre os seus anseios, acredito que a melhro solução, a que todos desejam, a mias "normal" e saudável é que permaneçam nas suas próprias casas. Até ao fim, se fôr caso disso. Mesmo acamados.
Não falo de cor, acompanho várias instituições na minha região que prestam apoio domiciliário e está provado que não só isto é possível, como é o que deixa as pessoas felizes.
Os serviços são pagos de acordo com o valor da reforma, numa proporção justa e podem ser apenas a alimentação, até à higiene pessoa, do lar e das roupas. Nos casos mais complicados, através de parcerias com os centros de saúde, garante-se a visita de enfermeiros ou outros técnicos. A família(caso exista) pode continuar a dar o sue apoio, no final do dia de trabalho e as noites podem ter também acompanhamento, caso existam os chamados "centros de noite", dotados de serviços de tele-alarme, com "vigilantes" nocturnos, etc.
O idoso, mesmo que debilitado, permanece na sua casa, na sua cama, rodeado dos seus vizinhos, das suas referências, da memória da sua vida. É assim que eu concebo o envelhecimento.

Mar disse...

(xiii emiéle entusiasmei-me e deixei um lençol, ainda por cima pejado de erros de dislexia parva...)

cereja disse...

Marzinha, lençóis destes são sempre muito bem vindos, como calculas, e quem escreve depressa não tem tempo para ver as gralhas, olha p'ra mim!....
Também já tinha entendido, basta passar pelo Ponto sem Nó, que este assunto te interessa.
Acredito que na tua zona de actuação as coisas se passem com outra dignidade. Repara no comentário da minha amiga AB, e sei bem que ela tem razão. Acontece que o manter o velhinho connosco em casa, pode ser muito complicado. Mesmo quando ele ainda está bastante autónomo, é preciso uma vigilância, uma atenção, que nem sempre se pode. Mas, a verdade, e quanto mais envelhecemos mais isso nos preocupa, é que muitas das famílias não têm essas condições para manter os seus mais velhos nas suas casas. É claro que o melhor é ficarem nas casas próprias, as que conhecem melhor, onde têm as suas referências. Mas quando tal não for possível? A tua mãe ainda está nova, para a actual esperança de vida. Mas junta-lhe mais 20 anos... Será que consegue tratar de si na mesma? Fazer compras? Cozinhar? Fazer a cama? E sobretudo - porque o apoio logístico muitas vezes consegue-se - alguém com quem conviver, com quem caturrar, que a acompanhe para não se sentir só.
Não é fácil!
Eu não sou nada, mas nada saudosista, mas as antigas famílias mais ou menos patriarcais tinham as suas vantagens.

Mar disse...

Emiéle, deixei-ta aqui a reposta pendurada tanto tempo...desculpa. Mas as férias e estes afazeres todos...
Não, tens razão. Claro que uma pessoa com 90 anso não consegue fazer nada disso. mas não entendeste o que disse: o apoio domiciliário faz isso tudo por ela. Mesmo que esteja acamada e também precise que lhe deem banhinho... a diferença é que está na sua casa. claro que é preciso mais que a visita das auxiliares uma ou duas vezes por dia. E por iso é que me refiro ao apoio de outras pessoas, os filhos quando podem e estão perto, os vizinhos, o enfermeiro. Claro que em meios pequenos isto é mais fácil...Mas claro que haverá sempre uma altura em que não é possivel de manter e é aí e só ai que eu defendo a institucionalização.