quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Para que serve?

É uma pergunta que pode ser da maior inocência e até conter um elogio ou pode ser muito sarcástica. Quando se pergunta ‘isto p’ra que serve?’ subentende-se que as coisas têm de ser alguma utilidade, é claro. Isto veio-me à ideia por ter estado numa casa que estava cheia a rebentar de mil e uma coisinhas. E alguém ter feito essa pergunta meio a brincar «Oh, filha, mas isto para que é que te serve?» levando implícita a continuação da frase «deita mas é para o lixo
É interessante porque tem tudo a ver com a personalidade de cada um.
Há quem assim que obtenha seja o que for novo, se desfaça de imediato daquilo que o «novo» veio substituir. É um instante.
E temos o oposto, as pessoas que mesmo perante uma coisa estragada, compram uma nova mas guardam a outra «porque pode ser que ainda tenha arranjo…»
São extremos, é claro. E como extremos que são acabam em caricaturas. Mas fez-me impressão a tal pergunta nessa casa bastante cheia, porque a resposta calou de imediato a ironia de quem fez a pergunta «Serve-me de recordação..»
E fez-se então um pequeno silêncio. A verdade é que mais de metade das coisas que nos rodeiam «não servem» para nada. Mas…
É claro que uma jarra serve para pôr flores (que também se podem pôr numa caneca ou numa cafeteira ou qualquer coisa dessas) contudo a maioria das vezes estão ali, na estante ou na mesa, sem flores, só para enfeitar. Fotografias e molduras, não têm uma utilidade prática, são as tais recordações. Livros, depois de o ler, está lido. Deixou de servir. Talvez uns anos mais tarde nos dê prazer voltar a ler, mas entretanto «não está a servir para nada». Umas velas, acendem-se, ardem, fazem um pouco de luz mas «não servem para nada». E almofadas que quase não se usam. E quadros nas paredes.
A verdade é que quem quiser passar muitas das nossas casas com a ‘peneira minimalista’, quase 80% das coisas estão a mais, são dispensáveis, mas estarão mesmo? E o conforto? E as tais recordações?
Creio bem que cada um é que sabe daquilo que «precisa» para se sentir num ambiente a que possa chamar «sua casa».

15 comentários:

Miguel disse...

Olá Emiéle!

É como tudo e o afirmas. Cada caso é um caso. Tenho uma tia cuja casa é um monte de tudo. Mas, sem estar cheia, adoro-a. Tem alma. E tanta coisa. Tantas que me dizem tanto. São as tais recordações dos últimos 30 e tal anos. Tem piada, sabe bem e é reconfortante sabermos que há aquele "esconderijo"!

Actualmente, sou mais para o minimalista. Incomoda-me um bocado muita coisa. Muita tralha. Já fui disso. Juntava e coleccionava tudo e mais alguma coisa. E comecei a deitar fora. Mais e mais. E a concentrar-me só em duas colecções. Uma delas é notas, claro lol. Mas fiquei-me só pelo que me diz alguma coisa. O resto é descartável e ocupa espaço!

Emiele disse...

E os estilos até podem coexistir! Por exemplo eu em cozinhas sou minimalista. Gosto de ter à vista só o que tem de estar à vista. O resto está guardado e não aprecio ter milhares de 'coisinhas'...
Mas já a sala de estar é como a da tua tia. Cheia não está, mas cada coisa ali, é uma recordação. E adoro quadros. E se posso acender uma velinha à noite dá-me mais conforto mesmo que o candeeiro seja óptimo. Etc. Afinal é a MINHA casa, diferente de outra qualquer...

josé palmeiro disse...

Creio bem que posso ser minimalista, aqui no comentário. Por isso elejo o último parágrafo do teu escrito, para comentar o que acabas de nos oferecer, para reflexão.

Joaninha disse...

Tens tanta razão!!!!
E afinal grande parte das coisas não «servem» realmente no sentido de ser útil, mas dão prazer à vida, dão gosto, e como na tua história, são sempre recordações.

Contudo se entro numa casa «atafulhada» faz-me alguma impressão. Como disseste bem 8 nem 8o...

kika disse...

"Meditemos e esvaziemos."
É importante termos espaços vazios para deixar entrar algo de novo.
É que quem guarda muitos objectos seja porque razão for,é um tipo de personalidade que tambem tem tendencia a guardar sentimentos, e estes ocupam espaço e muito e podem ser positivos ou negativos, e estes, devem ser deitados fora o mais depressa que for possivel!
O minimalismo assusta-me um bocado, mas muita coisa sufoca-me.
e o mais politicamente correcto é o teu ultimo parágrafo, mas será o mais saudável???
Não sei, sei que cada vez mais, dou mais a instituiçoes e até amigas, porque aquilo que para nós já é inutil para outros é o inverso!

Gostei do estilo pratico do Miguel!
Coleccionar ,sim mas notas (dinheiro) de preferencia, isto é
a visão realista da vida!!!
Além do mais quando pedem inovação, criatividade e se produzem objetos para o mercado é necessario aderir e comprá-los, caso contrário não estamos a ajudar a economia!!
Emiéle entendi perfeitamente o teu mundo , que tambem é um pouco o meu , mas já estou muito mais desligada de "trenguices "que me poluem a mente!

sem-nick disse...

Tem piada que a cozinha é onde eu penso que é mais natural haver muita coisa `vista para ser fácil deitar-lhe a mão!!!
Mas também enche-se de pó, não é? :)

kika disse...

Só um reparo á ilustração
"Amor e uma cabana?" Hum!!!! falta ali um bom sofá, no minimo...

josé palmeiro disse...

Oh Kika, não podes negar que és, mesmo, do Porto. Cidade, está bem de ver.
Digo isto porque me fizeste lembrar a minha neta, mais velha, que está sempre com as "trenguices", na boca.

fj disse...

Kika é do Porto? Não o sabia ZP. E se calhar do fcPorto.Então pelo respeito que por ela tenho concedo que foi goleada.Kika "...e esvaziemos" soa-me familiar.Meditação?
Não bem a propósito mas perto, vem no P2 de hoje um cartoon que achei muito giro, pois eles nem sabiam bem para que é que "aquilo" servia: dois putinhos olham muito intrigados para um objeto"estranho" que está no chão (um livro) e um diz para o outro:parece que é um livro, nas não percebo onde tem a bateria (pilha).Vale a pena ver o boneco, achei uma maravilha ,equipara-se aos habituais neste blogue.Mas a avaliar pela expressão dos putinhos,o estranho objeto será "esvaziado".Miguel não acreditas nos cheques nem nos bancos ? Colecionar cash deve ser incómodo ( mas porreiro pá ! Mas espero-te maximalista ).

kika disse...

Fj, tiro já a duvida, não sou fã de qq club!
Mas até me apetece ser do Sporting, precisam de taaaanto apoio, taditos!

Emiele disse...

Continuo a achar que o engraçado deste blog é o aspecto chat que tem tantas vezes. O «tema» desaparece para se começar na alegre cavaqueira sobre outros temas.... Adoro!

Percebo que o minimalismo assuste um pouco a Kika, eu numa casa inteira também não me seria agradável viver lá. Parecia que vivia num laboratório ou coisa assim. Como disse de brincadeira só na cozinha porque gosto de ver as coisas desamparadas, as bancadas vazias para se poder trabalhar.
A imagem não era do tal amor+cabana, Kika, mas de que qualquer lugar pode ficar mais 'quente' com os afectos ou recordações...

Miguel disse...

A kika é do norte mas é sportinguista! Vamos com calma. Nem todos os tripeiros são dragões...

Pois gostei do que descreveste Emiele.

Quanto às notas, esclareço. A minha relação com o dinheiro não é boa. Abomino-o! Mas tenho que o ter, o que é uma verdadeira chatice. Senão, não há vida no nosso modelo civilizacional onde o indivíduo "tem" que... tanta coisa! Daí o manifesto contra o trabalho e outros que tais. A discussão que isto daria. Mas, voltando ao dinheiro, as notas a que me referia são mesmo notas. Não de euros. De escudos sim por serem parte da nossa história e da minha/nossa vida. Consegui comprar notas novas de quando era puto e de quanto representavam na altura as notas de 20 paus, 50, 100, 500 e 1000. Tenho-as. Adoro ficar a olhar para as notas da Checoslováquia do partido único. São verdadeiras obras de arte. Deliro com as notas cheias de números da República de Weimar, verdadeiros lençóis. Ou ainda do Império Austro-Húngaro, com todas as línguas oficiais nelas escritas. Ou as notas russas do período czarista. Ou as que foram emitidas nas repúblicas secessionistas da ex-URSS ou ex-Jugoslávia e tantas outras. Notas do Biafra. Notas assinadas em Banja Luka. A maior nota jamais emitida no mundo, do Zimbabwe há pouco tempo e que consegui comprar em Kuala Lampur. Gosto, adoro a informação que se obtém pela visualização mais cuidada das notas. E a sua evolução ao longo das épocas. Pedaços de papel que, em determinados momentos, valeram muito (pouco).

fj,

A minha crença no sistema resume-se a dividir o dinheiro por vários bancos, não vá o diabo tecê-las e investir em activos que permitam preservar valor em qualquer cenário...

fj disse...

Miguel assim és completo.Giro em qualquer das modalidades.
Kika moralmente és uma cruel mistura benficofêpêportista, figura perversa no mundo psicofutebolistica.Então não houve goleada(s)ponto parágafo.

kika disse...

Oh Miguel, que leituras levianas se fazem, eu a pensar que estavas por aí a coleccionar dinheirinho, o que tambem é verdade, mas afinal és um numismático.
Muito bom mesmo! Desculpa!

silvya disse...

ah! com atraso como sempre, mas este post e os comentários, são demais.
eu tenho de confessar que não adooooooooooroi casas cheia, mas tanbém nada me dizem as casas vazias, sem alma´, sem alegria.
colecções, não faço. já estou como o miguel, só notas, e por vários bancos, não vá o demónio tec^-la, não é? mas como não o tenho, com grande pena minha, nem vale a pena pronunciar-me.
mas gosto de fotos, tiradas em momentos felizes da vida e que gosto de lembrar, e recordações amorosas, oferecidas com ternura e carinho, e daquelas coisas, que trazemos de férias e que quando olhamos, nos transportam para lá.
a vida é feita de recordações, boas e más...
mas é assim.
a cozinha emiele,deve ser o mais prática possível, é verdade, mas tem tanbém a ver com as pessoas que habitam a casa, e com o cuidado de quem nela mexe e a utiliza.
nem sempre se pode ter tudo. por vezes a sensação é que nada se tem.
fj, tentei olhar o público, para ver a tal cena dos "putinhos" e do livro a pilhas, mas não encontrei. tens a certeza que foi no p2?
bem, isto já vai longo, mas fiquei com vontade dce responder.
silvyaprata