terça-feira, fevereiro 02, 2010

Cenas da vida em Lisboa

Digo «em Lisboa» porque é cá que vou observando as situações, pode ser que noutras terras se passem variantes deste tipo de coisas, mas custa-me a acreditar que em países a que chamamos civilizados se possa apreciar situações deste tipo:
Numa rua por onde costumo passar ao ir e vir de casa, existe um prédio (idêntico a muitos outros, aliás) cuja porta da rua tem dois batentes iguais cada um deles com uma, relativamente, grande superfície em vidro. Fica bonito. Há várias portas assim hoje em dia, o átrio fica mais iluminado e dá um certo ar de transparência às casas.
Mas é claro que o vidro é uma substância frágil. A minha casa também tem uma porta dessas e já uma vez aquilo rachou e foi uma maçada.
Ora, creio que aí antes das férias grandes, um dia ao passar em frente desse tal prédio vi um papel muito vistoso que avisava «Cuidado! O vidro está mal seguro. Pede-se o favor de abrir e fechar a porta com muito cuidado»
Fiquei bem impressionada.
Ora aqui está uma ‘administração’ cuidadosa, que antes que aconteça algo de mal, previne para se ter cuidado. Muito bem!
Só que, como comecei por dizer, a primeira vez que o papel me chamou a atenção foi aí no Verão. Ontem ao passar por ali, reparei que todas as portas tinham um papel da Companhia das Águas a prevenir que dia 3, de manhã, vinham contar a água e agradeciam que estivesse alguém em casa ou o número de metros gastos num papel colado na porta. Aliás já tinha reparado nesse aviso aqui no meu prédio e percebi que era a zona toda. Mas ao passar em frente do dito prédio da ‘porta frágil’, vi que o papel tinha sido colado na parede. Não se atreveram a colá-lo na porta.
Ora isto dá que pensar! Há 6 meses que aquele vidro ameaça cair, e estão à espera de quê?! Uma coisa que quando vi a primeira vez achei digna de elogio, hoje parece-me do maior desleixo. Não encontraram um operário que fosse lá fixar aquela coisa como deve ser? Durante meio ano? Se alguém distraído ou de noite der ali um empurrão e ficar ferido, de quem é a responsabilidade?
É um caso típico do desenrascanço à portuguesa. Deixa estar assim que não há mal nenhum e não se gasta dinheiro...
Às vezes penso que aquelas indemnizações 'à americana' davam jeito.

10 comentários:

sem-nick disse...

É mesmo típico do nosso «desenransco». Só me admira como não colaram o vidro à porta com fita cola...
E o tempo que levam a fazer a mais pequena obra é de se ficar de boca aberta.

Mary disse...

Como dizes, sorte deles é que por enquanto não apanharam com nenhum bêbado ou um vândalo nocturno. Ia sair-lhes de certeza muito mais caro do que mandar fixar o vidro da porta como deve ser.

Zorro disse...

A história seria banalíssima se não fosse simbólica do que é o 'atamancar' de que gostamos tanto. Uma espécie de 'chico-esperto' também muito português... Tenho visto imensas situações desse tipo, em que avisam mas depois ficam pelo aviso!
Já pensei (devo ter uma mente perversa) que eles devem estar à espera de alguém distraído que parta mesmo a porcaria do vidro e como estava lá o papel a prevenir o obriguem a pagar os estragos. Assim era só lucro!!!
Admirem-se.... :)

josé palmeiro disse...

Para lá de típico, do nosso desenrascança é também a demosntração de quanto nos é difícil vivermos em comunidade. Um prédio com vários inquilinos é o exemplo típico de um governo de um país e resolver a compra ou arrajo de algo das partes comuns de um prédio é sempre motivo de grandes discussões e de muita falta de decisão, dada a incapacidade de atribuir culpas para atribuir responsabilidades. São "pescadinhas de rabo na boca".

Joaninha disse...

Incrível!!!
É que pelo modo como contas, o vidro em si (que seria o mais caro) está bom. Seria só preciso ir lá um vidraceiro - nestes casos não se deve chamar assim - e fixar essa coisa. Gaita, não haverá por aí um desempregado que durante 6 meses fosse lá fixar a coisa?!
Creio, como diz o ZP que deve ser uma questão de discussão de condóminos, cada um dizer a sua coisa e não haver maioria. Que parvoíce!

fj disse...

Já está tudo dito...

kika disse...

Quando cair já chamam um vidraceiro que fará o trabalho completo, porque até lá seria um biscateiro e não aparecem ,vivem melhor com os tais subsidios!
Eu tinha aqui um senhor reformado a quem eu chamava de mordomo, por graça, que desenrascava tudo a todos.Faleceu há cerca de 15 dias e nem vos passa pela cabeça como todos lamentam a sua ausencia, focando sempre o facto da sua disponibilidade para resolver essas coisitas. Ia ganhando uns dinheiritos extra..
Faz-nos muita falta porque na verdade não há ninguem e se pedirmos um profissional, só pela deslocação cobra-nos um balurdio..
E já que não há um condómino disposto a isso, ficam á espera que caia e quanto mais tarde melhor!!

silvya disse...

Que dizer? como diz o fj, está tudo dito. Quanto a mim, dou-lhe outro outro nome.Incúria e falta de respeito para com os inquilinos ou condónimos, como lhe queiram chamar.
No meu prédio, já nem falo. Últimamente só me apetece fugir.
nem vos conto.
O blog é da Emiele.
mas como diz o Ze, é o desenrascar do português, só que na maior parte das vezes, o barato sai caro. um desses dias quando o maldito vidro cair em cima de alguém, vai ser o Deus me acuda. mas aí...que fazer?
Abraço
Silvyaprata

Maria disse...

Emiéle, a permanência desse aviso não será a forma (talvez, pouco eficaz - por deixar cair a descrença...;)) de os utilizadores da porta do prédio terem cuidado ao fechar a porta - terem em atenção a "fragilidade do vidro"? Digo isto porque é comum ver-se nas portas de entrada dos prédios, em Lisboa, pelo menos na zona da casa da minha mãe (nessa são portas grandes de ferro e vidro) um aviso para terem cuidado ao fechar a porta para não bater ou/e ainda deixa-la bem fechada...

Emiele disse...

Maria, és muito boazinha, mulher... Essa interpretação é cá de uma tolerância! Afinal na minha casa a porta também tem lá escrito «não batam com a porta»...
Zorro - admira-te que seja essa a ideia. esperar que alguém a parta mesmo e depois assacar-lhe as culpas!
Silvya é mesmo falta de respeito, acho eu. E o pior é que os inquilinos tem colaborado...
Zé palmeiro, realmente não temos mesmo jeito para viver em comunidade, é um facto!!! :)