sábado, outubro 24, 2009

Em adenda à notícia debaixo:



Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce

sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.

Disse Galeria dos Ofícios.)

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… eu sei…

As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença

está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.

Palavra de honra que está!

As voltas que o mundo dá!

Se calhar até há gente que pensa

que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu,

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar- que disparate, Galileo!

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça

sem a menor hesitação-

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,

daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo

e tinhas à tua frente

um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo

a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,

que parecia impossível que um homem da tua idade

e da tua condição,

se tivesse tornado num perigo

para a Humanidade

e para a Civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade,

os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,

desceram lá das suas alturas

e pousaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,

nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual

conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias

nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento,

livre e calma,

aquelas abomináveis heresias

que ensinavas e descrevias

para eterna perdição da tua alma.

Ai Galileo!

Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo

que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,

andavam a correr e a rolar pelos espaços

à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias, a todos os contratempos,

enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo,

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão

9 comentários:

fj disse...

Poema extraordinário e de forma original tãooportuno.
Convem contudo ver a crítica de José Saramago que contesta que tenha sido d/Deus a dar.nos a inteligência (se fosse emprestado ou alugado ao menos), bem como outra referència a essa personagem que,através ao menos dos seus sicários, não tem grande jeito para a ciência.Claro que entretanto tudo vai caindo.

kika disse...

Belissimo este poema a evocar Galileu, muito conhecido, mas é sempre bom relembrar estes vultos do universo.
Bom! E o humor irónico do fj sempre presente
Vou fazer 150 kms à chuva
bfs

Mary disse...

Vai caindo afinal em direcção à terra, mas os astros em si, não «caem» não é? Rodam ou lá o que é...?
Estas coisas se me fascinam por outro lado realçam mais a minha enorme ignorância!!!
Este poema, se é conhecidíssimo é pelos melhores motivos.
Viva o Gedeão.

André M. Palmeiro disse...

E será que para fim de festa, os doutos, sapientes e temerários guardiões da tal verdade universal (qual, não sei), consideram este, o Gedeão, tão ignorante como o outro, o Saramago, que só profere sujidades...?

Só espero que o Carreira das Neves não te tenha lido, senão será um "ver se te avias"!

Quando é que essas potestades se convencem de que não têm nenhum exclusivo do pensamento e da fé universal; a fé de acordar todos os dias e acreditar num mundo menos quadrado.

cleopatra disse...

antónio gedeão é sempre oportuno.
quanto muito faz-nos relembrar coisas, assuntos por vezes esquecidos.
quanto a mim estão a dar demasiada atenção, ridicula aliás a obra de Saramago.ele como escritor é livre de escrever o que entender, e os leitores só lêm o que lhes apetece.
quanto a conversa"debate" entre o escritor eo padre, C.N,vi uma parte e depois desisti...
não tive mais paciência.
quero agradecer ter publicado o meu comentário sobre o Colégio Militar.
desejo-lhe as melhoras. bom im-de-semana.
cleopatra

Anónimo disse...

É de facto um poema eterno! E tão oportuno!!!!
Ontem o caso dos «meninos da Luz» ficou menos comentado do que costumam ser os posts deste blog. Foi um pouco pena. Mas apareceu uma nova comentadora Cleopatra (não encontro o blog) que não costuma aqui vir.
A roda de comentários está sempre a crescer... :)

sem-nick disse...

Hoje fui eu que "perdi" o nick (apesar de já não o ter...lol) estás a ver Kika? Acontece a todos :)

Emiele disse...

Sem-nick, isto de facto de vez em quando engana e faz fugir o nome que escolhemos. O poema do Gedeão é ainda muito actual.
FJ, não sei bem o que o Saramago disse, cá para mim o que ele diz não se escreve, apesar de que acho que o que ele escreve se lê. O homem só devia escrever...
Kika, 150 km à chuva? Tadinha...
André Palmeiro os mistérios da fé são para os tais crentes, que sejam muito felizes, claro, e não obriguem os outros a pensar como eles.
Cleopatra, obrigada pelos votos de melhoras (ainda não estou assim 100%) e claro que os comentários que aqui chegam são publicados. Tenho a sorte de nunca ter aparecido nenhum a ofender, e é claro que não é o caso :)
Mary, os astros rodam parece :)
Mas quem como nós vive na terra pode cair! Ui, ui!

josé palmeiro disse...

Deixaste o poema certo!
E ainda mais acertado, dado as circustâncias que decorem da controvérsia "Saramaguiana", ( Esta foi uma invenção minha).
Vejo que o meu familiar já cá esteve, bom sinal.
Quanto às tuas melhoras, adivinham-se...