quinta-feira, outubro 08, 2009

Desperdiçar (?)

Quando se faz uma pergunta, reduzir a resposta a uma parte dela, é um erro. Sobretudo quando se pode prever que a comunicação social vai aproveitar essa resposta pelo seu lado mais chocante.
Foi o caso do senhor presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia que produziu determinadas declarações referidas amplamente quer nos jornais quer na tv.
Parece que lhe foi perguntado qual a sua opinião sobre o Programa de Intervenção em Oftalmologia que se propõe
«reduzir o tempo de acesso a consultas de oftalmologia, garantir o acesso à cirurgia da catarata em tempo adequado e reforçar o papel do Serviço Nacional de Saúde na resposta às necessidades da população».
Em resposta ele afirma que "é preciso muito cuidado com as indicações para este tipo de intervenção” com o que só se pode estar de acordo, evidentemente, mas acrescenta
«o Estado não pode desperdiçar dinheiro e aí a responsabilidade é dos médicos. Devem tratar sempre o doente da melhor forma e não precipitar as cirurgias»
O Estado. Se for um doente do privado já pode ‘desperdiçar dinheiro’ (?)
É que, se na nossa terra aguardam por uma primeira consulta de oftalmologia cerca de 110 mil pessoas, esse número é suficientemente alargado para se justificar o tal programa. Será que o número dessas cirurgias é astronómico como ele diz, por essas consultas terem estado a funcionar ao ralenti durante muito tempo?
De resto, quer através do SNS, quer no privado, é importante só avançar para uma cirurgia quando tal se torna necessário e com todas as cautelas. E isso deveríamos acreditar que os oftalmologistas o fazem. Contudo dizer, que “há cirurgias que se fazem e que, se calhar, são desnecessárias"(???) porque “nem todas as actividades profissionais exigem a mesma acuidade visual” é aceitar que uma boa visão é importante no exercício de uma profissão (e nem todas, pelos vistos) mas já não tem importância para se manter uma boa qualidade de vida .
Isto, dito pelo representante dos oftalmologistas, é estranho.

16 comentários:

Joaninha disse...

Não cheguei a entender se a resposta dele não está também truncada. Às vezes os jornalistas aproveitam o que é mais polémico.
Mas quanto a esse aspecto de que uma pessoa passar a ver bem não pode ser só encarado como um 'investimento' de uma profissão, aí nem se discute.
Tive uma tia-avó que exactamente por causa das cataratas estava completamente dependente. Para ela era terrível e era também um peso na família porque tinha de ser ajudada em muita coisa. Os filhos pagaram-lhe a operação (foi no privado) e a vida mudou completamente! Não só ficou de novo autónoma como até ajuda em casa, e anda muito bem disposta.
Realmente a palavra 'desperdiçar' é muito infeliz!

AB disse...

Conheço o Travassos.`È homem de poucas falas e de comunicação pouco fácil.Mesmo com os doentes dele.Conheço casos em que a intervenção dele foi decisiva para evitar a cegueira mas creio que o que ele disse PODE não ter sido bem entendido.Ele é de facto de opinião (embora faça imensas cirurgias e venha gente de todo o lado a Coimbra para ser consultada por ele )que no caso da vista as intervenções cirurgicas tem de ser muito bem pensadas.Sem querer atraiçoar a coisa é um pouco "qt. mais tarde melhor".E por experiencia propria estou em crer que ele tem razão.Anda para aí uma corja irresponsável que se atira ao "laser" para reduzir miopias (coisa que não existe o que existe é inverter a miopia ou seja deixas de ter dificuldades de ver ao longe para teres dificuldades de ver ao pé)Atenção tudo isto é vulgata para se perceber porque o jargão cientifico é muito complicado para se "esmiuçar"aqui.Depois pensar que a questão económica não se põe em saúde já sabemos que é puro lirismo.Para rematar creio que o que ele disse não terá sido "apenas" o que a comunicação social transmitiu e se calhar não totalmente por culpa da própria mas da dificuldade que há em fazer aquela alma falar direito...(eu que o diga)AB

josé palmeiro disse...

Primeiramente, devo esclarecer que este meu regresso é definitivo e, só espero que a assiduidade se mantenha, isto porque ando pelas terras do ALLGARVE a resolver a vidinha, o que me ocupa algum tempo, depois tenho o caso pendente em Lisboa que só a 22 me dará, "Guerra ou Paz", aguardemos.
O que aqui deixaste, fez-me lembrar a minha mãe, que esperou, até morrer, por uma operação às cataratas, fazendo parte dessa interminável lista, que só acaba assim, isto porque o dito "Serviço Público", continua a ser um rol de intenções, cada vez mais espremidas.
Não posso terminar sem agradecer as saudações que os confrades me deixaram e enviar um grande abraço à minha "comprovinciana", AB, pelo seu regresso, sempre vivo e actuante.

Mary disse...

Creio ter entendido o que diz a AB, mas isso do 'quanto mais tarde melhor' é afinal o que se faz de uma forma geral nas respostas - até à data - através do SNS. Quando se espera anos pela resposta, seja ela qual for, é mesmo qualidade de vida que se está a perder.
Quanto à miopia, até pode ser "moda" AB, mas chame-se o que se quiser, reverter ou reduzir a verdade é que tenho na família muitos casos (na família e não só, vários amigos e filhos de amigos) que fizerem a operação há já vários anos e correu muitíssimo bem. Por enquanto vêem lindamente ao pé, como qualquer pessoa da sua idade. Talvez na meia idade precisem realmente de óculos de ver ao pé, mas muitas pessoas que nunca tiverem miopia também.

Mary disse...

No meu comentário até parecia que o post era da AB :)
Mas como ela falou bastante, e por o que disse com experiência no assunto, tinha de o referir.
Acredito bem que ele se tivesse explicado mal, mas a palavra 'desperdiçar' temos de reconhecer que é infeliz, mesmo que se saiba que «é puro lirismo pensar que a questão económica não se põe em saúde». A verdade é que o tal programa, Programa de Intervenção em Oftalmologia, existe. Qual o problema em o aplicar?

Emiele disse...

Ora bom dia!
Apareço por cá um tanto de fugida porque tenho de voltar a sair mas é certo que quando escrevi isto até pensei em particular na AB que, como aqui disse, tem experiência própria no assunto.
A verdade é que ele se explicou mal. Comecei por levantar a hipótese de que a resposta fosse mais completa do que aquilo que a Comunicação Social disse, mas foi o que ouvimos. Acredito que haja belos médicos que não tenham o dom da palavra e o inverso - tipos que falam muito bem e são péssimos médicos. Mas o certo e que só podemos avaliar por aquilo que nos dizem. E eu tive uma experiência igualzinha á que a Joaninha conta: uma senhora já velhinha que estava à espera de uma operação e dependente para tudo, a filha pagou-lhe a operação e ela passou os últimos anos de vida muitíssimo melhor. Portanto vale a pena.
Quanto à miopia, eu seu AB que te explicaram isso, e decerto é verdade, mas em muitos casos de gente jovem tem funcionado muito bem. Os 3 filhos de uma minha colega médica, e 3 primas e 1 primo (afastados, e pelo menos mais 3 pessoas que conheço são testemunhas desse sucesso.

fj disse...

A prevenção de joaninha tem de ser levada em conta, julgo. Caso não o seja temos o discurso neo liberal típico aplicado a oftalmologia ( sem esquecer que o dinheiro do privado vem muito do público ), ou uma versão um pouco diferente que nos é trazida por AB, com argumentos que não posso comentar.
O cero é que oftalmologistas, dentistas, otorrino e outros se fartam (?) de fazer dinheiro no "privado", largamente comparticipado, e as esperas, admitindo que não são uma benesse longas como o raio.
Mas se os tempos mudarem ainda que seja só um pouco, ainda os veremos, mais pelo menos os an´tomo patologistas defensores acérrimos do sns, e a pedirem para entrar. Vejam os dentistas, p.ex. Em última análise assunto a resolver com comparticipação da alqaeda,por ajuste direto,sem concurso, claro, e tomamdo em conta para a comparticipação para a "anulação" de cada profissional-"alvo" os respetivos rendimentos , o agregado familiar deduzindo descendentes ou ascendentes com a mesma profissãoa, preços levados , taxa de discrinação para com os pacientes da adse dos alvos.Eram 3 meses.E claro, inserção da despesa na rúbrica "outras diligências confidenciais " do orçamento do estado. Bem feito era, para não estar aqui a brincar com coisas sérias,era se tivesse um diagnóstico de cirurgia urgente...

sem-nick disse...

É isso.
O comentário do fj está um tanto confuso :) mas disse o que me preparava para dizer.
Por mim acho que esta celeuma foi por causa do «affaire» do Hospital de Santa Maria e aquelas vítimas nem se sabe bem do que foi (e se calhar nunca se vem a saber...) Mas a verdade é que esse tipo de especialistas ( ele agora lembrou os dentistas que também é outro negócio) muitas vezes funcionam no privado para quem tem seguro ou muita massa, e aí as coisas parecem logo diferentes.
Mesmo assim, até no privado se tem de esperar um bom bocado ou é-se amigo de um amigo de um amigo e lá vai uma cunha...

Anónimo disse...

Afinal é a imagem que ilustra o texto.

AB disse...

Bom.Quando falei do Travassos falei por experiencia própria.Aliás uma das razões porque tenho vindo pouco aqui à net tem a ver com as dificuldades de visão criadas exactamente por uma operação-1º-com diagnostico errado-"2º(a Emiele sabe muito bem disso porque me acompanhou)com um acompanhamento pós-operatório nulo e irresponsavel por parte do operador.Em desespero fui a Coimbra exactamente ao Travassos que com a dificuldade de comunicação que de facto tem me explicou a sua opinião sobre assuntos vários relacionados com o tema.Neste momento espero uma 2ª intervenção.(são precisas algumas condições para se realizar, condições do próprio olho que vai sendo monitorizado).Por isso se calhar percebo melhor ou creio perceber as afirmações do Travassos.(as que a Emiele transcreveu porque outras não ouvi).AH! a 1ª operação não foi feita no SNS mas num hospital dito especializado por um médico dito credenciado.Está com queixa na Ordem e processo judicial.AB

AB disse...

Ainda cá volto para dizer que a razão do diagnostico errado foi a insuficiencia de exames prévios e a precipitação em operar.E para cumulo da ironia enquanto ia operando o SR.Dr.Ia comentando "Então não preferiu ir fazer isto a Cuba?"AB

King disse...

Hoje só consegui chegar aqui ao Pópulo tarde e a más horas.
É claro que o tema é importante. Costuma-se dizer que com os olhos não se brinca, embora não se brinque com nada mas não sei porquê mas o que se refere a olhos impressiona-nos mais.
O depoimento da AB é bem importante e pode ajudar-nos a pedir uma confirmação de diagnóstico. Eu tenho essa 'mania', quando uma coisa é grave vou sempre ouvir «outra opinião» mas elas acontecem!
Olha AB, mesmo só te conhecendo deste convívio virtual fico a torcer porque tudo acabe bem.
Também acontece, não é? :)
E fizeste muitíssimo bem em apresentar queixa. Por aquilo que dá para te 'conhecer' daqui és mulher para levar isso em frente! BOA!
(Digo isto porque muita gente queixa-se aos amigos mas não faz nada)

King disse...

Reli o que escrevi, e espero que quando disse «também acontece» queria dizer com o sorriso, que «acontece, também, certos azares acabarem bem». Eu não sou muito optimista, mas já tenho sido agradavelmente surpreendido com coisas boas. E a nível de saúde, aqui o nosso 'colega' Zé Palmeiro - que voltou aqui ao grupo - passou por uma bem grave como nos contou e cá está a escrever cheio de saúde.

(e a dar-nos receitas de pitéus; vou agora lá à SESTA)

Saltapocinhas disse...

Olha que o médico é capaz de ter alguma razão quanto às profissões e à acuidade visual...
Por exemplo tu ouves, quando se fala de pessoas já muito velhinhas dizer que viram sempre muito bem atá avançada idade.
E porquê?
Os que trabalhavam nas terras ou em casa ou noutra profissão do género, não reparavam que a vista se ia perdendo!
Por exemplo eu, se não soubesse ler ainda não devia ter reparado que vejo mal em algumas situações...

Emiele disse...

Mas Saltapocinhas pode ser exactamente verem bem até começar a catarata, por exemplo. Claro que pode ser como dizes, mas quando não «se repara que se vai perdendo a vista» é porque a coisa não é séria. Não acredito que sejam esses que estejam em lista de espera das consultas oftalmológicas, nem que depois sejam operados.
E quanto a ti menina, se não soubesses ler, podias queixar-te de que não vias para enfiar uma agulha, não?
:)
Isto tem que se lhe diga!

Emiele disse...

Só mais uma coisa para a minha rezinguice:
Acredito que cada vez mais cedo se veja mal e até se oiça mal.
Mas isso por o tipo de vida que se leva. Desde criança que se esforça a vista muitas vezes à noite, com luz artificial, e olhando para coisas que não fazem nada bem - televisão ou computadores. Hoje faz-se muito mais vida nocturna, e os hábitos são diferentes. Imagino que os olhos é que pagam.
Por outro lado há muito tempo que há alertas, em que não só música das discotecas mas até o ouvir mp3 de fones metidos nas orelhas com o som ao máximo, está a criar uma geração de surdos parciais precoces.