quinta-feira, julho 02, 2009

«Machos alfa»

Aviso já à cabeça que este pode ser um post antipático para algumas pessoas. Tenho andado até a moer, se escrevo ou não isto em que ando a pensar, porque receio vir a ser mal interpretada. Mas, muito recentemente, apanhei com mais três casos tão típicos, e característicos deste modelo de comportamento, que não resisto, e cá vai:
Sabemos que desde a grande guerra, a mulher entrou no mercado do trabalho. Primeiro lentamente, só enquanto ‘era preciso’, depois mais afoita, e hoje olhamos à nossa volta e vemos raparigas e rapazes a preparem-se para uma profissão, independentemente do seu género. É natural, vulgar. Há ainda uns ajustes, a igualdade nesse campo não é perfeita mas, na generalidade dos casais que conheço, trabalham os dois como algo perfeitamente natural.
Contudo, sobretudo em casais um pouco mais velhos, encontro um modelo de vida extraordinário. Muitas vezes têm contas separadas - mesmo que haja uma conta comum, cada um tem a sua «conta-ordenado» por exemplo. E, curiosamente, é a mulher que se encarrega não apenas de gerir a casa [o que é uma tradição aceite por elas de bom grado (??) ou pelo menos sem grandes queixas] como também de cuidar dos pagamentos necessários. Vai às comprar da alimentação, higiene, limpezas de casa, e ao chegar à caixa paga ela (este tipo de marido não a acompanha, nem faz a menor ideia do preço das coisas). As contas da electricidade, água, gás, a televisão, são pagas por ela, a empregada que lá vai passar a ferro ou aspirar o chão é responsabilidade económica dela, e por aí fora.
Este tipo de marido cuida do carro, paga a prestação e a gasolina, compra as suas roupas, ou quando vão jantar fora paga a conta do restaurante porque até parecia mal que o não fizesse…
Como eu disse, ao longo dos anos tenho encontrado vários casais deste tipo. Bons rapazes, simpáticos, divertidos, não é isso que está em causa. Não o fazem por mal. A mulher muitas vezes é até um pouco ‘mãezinha’, protectora e carinhosa e, sobre muitas coisas de casa, ele explica, risonho, «ela é que sabe!». Ele não precisa de saber.
Ele trata e sabe das «coisas de homem». A lavagem do carro. As marcas da cerveja. O preço do bilhete de futebol. O jornal de Domingo.
Desculpem-me a sinceridade, mas ele sabe, interessa-se e paga, os… extras! Muitos destes homens se um dia a mulher lhe desse um amok, fizesse as malas e desaparecesse com o seu salário e a sua contabilidade doméstica, não conseguiam sobreviver sem cair no maior descalabro.
Ainda há poucos dias estive a ouvir um destes casos. E passou-me pela cabeça que se alguém dissesse àquele santo homem que ele anda a viver à custa da mulher, e isso há muitos anos, ele caía logo ali redondo no chão! Dava-lhe uma coisinha má, ser comparado àqueles que fazem profissão de viver do trabalho das mulheres, mas… a diferença é só moral. Na prática, é igualzinho.
Eles são muito machos. Lá isso…

25 comentários:

Joaninha disse...

O texto (?) post (?) é duro mas certeiro.
Eu conheço vários casos desses, e tenho a certeza de que quase toda a gente conhece. Como dizes «não é por mal» e até são bons rapazes. É uma questão de educação e meio social. Muitas vezes nas suas casas (deles e delas) era também esse modelo.
Recuando um pouco no tempo, mesmo quando a casa era sustentada apenas por ele (o que altera um tanto a tua conclusão final) esse tipo de maridos no princípio do mês deixava em casa um tanto que imaginava suficiente para as despesas e a mulher que se amanhasse. O resto do ordenado era para os seus gastos pessoais. Se o custo de vida subia, azar o da dona de casa, mas não era problema dele.

Joaninha disse...

Ah, claro que me faltou acrescentar que a «culpa»? «responsabilidade»? também é dela. Quem permite que as coisas se passem assim, e muitas vezes quase incentiva, é a mulher.
Se ela decidisse desde o início questionar esse tipo de 'partilha' dos deveres, talvez nunca as coisas se cristalizassem nesse formato!

sem-nick disse...

Tás brava, criatura!!!

E... tens razão. A carapuça não me serve, mas tenho esse modelo na minha família. E família próxima!!!
Eu, caladinho, mas... tal e qual como descreves!

fj disse...

Assino por baixo dos comentários de joaninha e de sem-nick, neste do primeiro parágrafo. La se a carapuça me serve e a minha familia já não sei.De qualquer maneira culpa é delas.

raphael disse...

Claro que entre casais jovens, urbanos, classe média, já vemos quase o oposto. As 'tarefas domésticas' estão rigorosamente divididas, muitas vezes as compras é com ele, e conhecem perfeitamente os preços das coisas, até melhor do que ELA.
Serão «machos omega»?...
Mas tenho de reconhecer que tens razão. Também tenho na minha família casos como recordou a Joaninha no primeiro comentário: é ele que ganha, a mulher é «doméstica» e recebe uma espécie de mensalidade para governar a casa. Acho que ela nem sabe bem quanto é que o marido ganha!

Emiele disse...

Olá!
Hoje ainda ando por perto do computador e aproveito para responder já.
Sabes FJ, esta questão mexe comigo até porque o primeiro exemplo que tive foi o dos meus pais. Sendo o meu pai uma excelente pessoa, lá em casa o ordenado dele era para os extras. Sempre me deu alguma volta ao estômago. E recentemente estive á conversa com uma grande amiga nossa, cujo marido está prestes a reformar-se com uma reforma relativamente pequena, e ela está a desejar que essa reforma dê para os gastos DELE, porque o que ela ganha é para manter a casa... E, profissionalmente, também ouvi dois casos inacreditáveis.
Tive de desabafar aqui.

(Ná, a carapuça não foi pensada em ti, não) :)

King disse...

UI!
Cada um de nós começa a experimentar o tamanho do chapéu...
Bem, acho que não. Este não me serve, mas...
Sabes, Emiéle, recordando os meus pais tal como tu, também me parece que o ordenado dele era para os extras, ou para as coisas boas.
Muitas vezes guardava parte, tinha um hobby um pouco caro, era dali que vinham as férias e as viagens, etc.
A ideia era que afinal beneficiávamos todos, e era certo. Mas como aqui acentuas, psicologicamente era diferente. Quando éramos crianças ficávamos muito agradecidos a ele porque nos dava as coisas boas. Da mãe era o dia-a-dia.

Nunca tinha analisado a coisa assim.

Joaninha disse...

Beeeem...
Lendo a tua resposta aqui em baixo, entendo que essa irritação vem de longe, como o Brandy Constantino.
Felizmente os ventos são outros agora. Talvez também porque os salários estão mais equiparados e em muitas casas são iguais ou às vezes ela ganha mais!

josé palmeiro disse...

Excelente escrito.
Estou como o FJ pois assino por baixo o comentário da Joaninha.
Agora não digo mais nada porque me levantei mais tarde que o habitual e só agora vou comprar o pão, pois o resto do pessoal cá de casa ainda dorme. Até logo!

sem-nick disse...

Eheheh!! Gostei dessa dos «machos ómega», Raphael! (dantes eras freguês habitual aqui da tasca, mas andas arredio...)
Claro que hoje também encontramos o tal modelo quase oposto, como dizes. E mais um outro 'modelo' que também me choca um pouco, são aqueles casais que dividem rigorosamente todas as despesas. Cada um deles paga metade de tudo, renda, telefone, água, luz! E quando jantar fora pedem contas separadas.
Cá para mim é um raio de um casamento... Parece que vivem em desconfiança ou coisa assim.
Na minha casa há uma conta comum e é daí que saem as despesas também comuns. Reconheço que ela conhece melhor alguns preços, mas...
Depois, de vez em quando um de nós faz «um mealheiro» à parte para uma 'excentricidade' ou uma prenda especial que seja segredo, mas é sempre coisa pequena (e cada vez pior que a vida não está para isso)

E não somos nenhum casal modelo!!!

josé palmeiro disse...

Já voltei com o pão e aproveito para cá voltar.
Tens razão Emiéle, os pais...
Os nossos pais, no meu caso, como certamente no da maioria, o pai é que trabalhava, isto é, trabalhava, fora de casa e com os ordenados que auferiam, se não fosse a mulher a poupar/trabalhar que nem uma moira, para fazer render, não sei que seria.
Semore tive essa ideia, porque via e estava demasiadamente atento a todas essas coisas do quotidiano, daí, talvez, nunca ter sentido essa diferenciação, assim tão acentuada como aqui é afirmado. Quanto às compras, lá em Estremoz, era hábito serem os homens a fazê-las e as mulheres só mais tarde começaram a ir ao mercado. Depois, no meu caso concreto, como o meu pai era do ramo das merceerias, era sempre ele que mandava ou trazia as coisas para casa. Sempre se valorizou o valor do trabalho da minha mãe de forma que isso para mim não constituiu novidade, nem era como o descrito. Depois, quando constituí família, primeiro eu estava na tropa e a minha mulher, estava a acabar o curso. Quando foi trabalhar, eu ganhava mais que ela mas nunca se colocou esse problema porque o que havia era de todos e para todos. Com o decorrer da vida várias alterações se foram introduzindo até ao ponto de eu estar no desemprego e ela a governar tudo sózinha, já com dois filhos nascidos e na escola. Mas entendo o que dizes, pois sei de muita gente, ainda a viver nos cenários que descreves e faz-nos grande impressão.

Emiele disse...

Pois amigo Zé Palmeiro, a minha história é diferente. Os pais eram os dois licenciados, a minha mãe sempre trabalhou e nunca foi muito vocacionada para o trabalho doméstico. Aliás eles tinham a mesma profissão e creio que ganhariam exactamente o mesmo. Não era por aí. Era mesmo o feitio.
Sem-nick, sabes que por acaso também é uma coisa que me faz alguma impressão essas contas muito separadas. Eu creio que se vê sobretudo em 2º casamentos, depois de um divórcio complicado. Gato escaldado...

Emiele disse...

....Mas já a minha avó, lembro-me de ela dizer com irritação, e bastante humor, que só lhe tinham ensinado a tocar piano e falar francês, e que ela bem gostava de ter outra capacidade que a ajudasse a ganhar um dinheiro independente do meu avô.
:)

fj disse...

Claro que tambem pensei nisso. Dos nossos pais em geral recebemos a "lição"referes. No teu exemplo pessoal lembro-me bem da surpresa que foi a explosão da personalidade da mãe, quando, infelizmente, se viu sózinha.
Claro que tambem enfiei a carapuça.Os homens, por natureza(e pela naturez ), bem formados,o do minimo dos minimos que se pode exigir é isso, o que é pouquissimo...

Mary disse...

Tem piada como os comentários de hoje (tirando a Joaninha) são de homens... O que só demonstra um bom espírito de observação e «auto-crítica- da-espécie»
lol!!!
Gostei do título!
Pois é José Palmeiro, a Emiéle não generalizou e pelo que vejo a malta que por aqui passa não pertence à categoria, - era o que se esperava, já agora! - mas lá que ela existe, isso existe.
Por outro lado, é claro que a culpa é partilhada pelas mulheres. Não apenas as «mulheres-esposas» mas as mulheres que foram suas mães e que os educaram. O certo é que este modo de pensar educa-se como tudo o resto. É certo que tem importância o modelo que se vê em casa, mas não só.
Foi muito bem apanhado!

Maria disse...

Até que para mim é bastante simpático, atendento que - "Eu sou o alfa e o ômega" (Koiné grego: τὸ Α καὶ τὸ Ω), uma denominação de Deus no Livro do Apocalipse (versículos 1:8, 21:6, e 22: 13)"* - de género diferente, claro! Quanto à "carapuça" essa é partilhada em modelos diferentes - eu , um chapéu de palha igual ao que usava Catarina Eufémia e ele uma boina "basca" como a de Pablo Picasso.
Quanto a "culpas".... "de boas intenções está o inferno cheio" eheheh, haja sentido de humor!!!!

( o meu marido é artista.Não venham cá dizer-me - está tudo explicado ou desculpado - aí, perco o sentido de humor...)

*(Wikipedia- versão inglesa)

zorro disse...

Beeem, esta caixa de comentários está um pouco diferente do habitual.
Como disse a Maria, cada um tem a «carapuça» que escolher.
OK, OK, se as despesas cá em casa são partilhadas, já é certo que eu não sei exactamente bem o custo de algumas coisas do dia a dia (fiquei parvo no outro dia que o detergente da máquina fosse tão caro!) e sei muito bem quanto é a média da revisão do carro...
Eheheheh!!!
E, para concluir, em casa dos nosso melhores amigos parece-me bem que se usa o modelo que citaste. Os 'extras' são dele, e o dia-a-dia dela. Até já temos comentado entre nós!

André M. Palmeiro disse...

Permitam-me ir contra a maré, até porque (felizmente) não sei o que é viver junto; acho que não suportaria tantas diferenças. P'ra mim (e perdoem-me a simplicidade), quem não se aguenta à bronca, desaparece.

P.S: Sei o que é viver sozinho e prefiro-o a ter que partilhar o quotidiano com alguém que dificilmente me compreenderia, dadas as enormes diferenças entre sexos; têm-me dito que quando for mais velho irei precisar de um ombro feminino para me acoitar na doença... bem, não me pronuncio, mas soa-me a algo egoísta, não...?

Definitivamente, acho que não encaixo em nada do descrito nesse post, portanto... calo-me "hic et nunc"

sem-nick disse...

O Palmeiro-André está muito azedo, ou amargo, ou uma coisa dessas...
Olha amigo, não é preciso passar por essa experiência, não será? Aqui a nossa anfitriã Emiéle, até dá a entender que não é por experiência pessoal que fala, e sim do que observa à sua volta.
De resto o viver sozinho tem a sua graça, mas de um modo geral isso acontece mais depois de um divórcio :)

Realmente «elas» são felizmente (iupi!) são bastante diferentes.
É aí que está a piada.

Maria disse...

Bem, devo esclarecer:- quanto às despesas são partilhadas e não há contas separadas e tenho liberdade de gastar, como quero/preciso ou posso, nunca perdendo de vista que a gestão é minha e a responsabilidade que isto acarreta.
Vê lá Zorro, eu sei o preço do detergente e a média do custo da revisão do carro "e esta hein?!"
Quanto aos meus pais, ambos trabalhavam e era tudo partilhado menos as tarefas domésticas. A minha mãe teve 6 filhos, foi uma "super mulher", a vida dela foi muito atribulada, devido à profissão do meu pai, mudámos de casa e lugar várias vezes e ela sempre dando conta do recado. Ficou viúva muito nova, embora o desgosto, foi sempre à luta até morrer, recentemente, com 80 anos.
Desculpem o "lençol" e ter aproveitado para lhe prestar aqui a minha homenagem!

Emiele disse...

André, não foste contra a maré, isso seria se dissesses que concordas com o comportamento deste tipo de marido, que por aquilo que ele disse não é o teu pai, e não és obviamente tu uma vez que vives sozinho. Mas como te respondeu o sem-nick em falava de um modo geral, não estava à espera de testemunhos pessoais... Agora és muito novo, mas custa-me a crer que vás viver a tua vida toda, até ao fim, numa cela de um mosteiro - e mesmo esses têm companhia. :)

Maria, obrigada pelos comentários e testemunho. Eu também sou uma «maria-sabe-tudo» e até as tais 'coisas de homem' como a bricolage tenho algum jeito! Portanto também sei os exemplos que dei, os preços das coisas dos carros, dos bilhetes da bola, e da cerveja e jornais desportivos eheheheh!
Quanto à tua mãe, grande mulher, então! Eu sou filha única e como disse numa das respostas, lá em casa era o modelo B. Apesar da minha mãe ter a mesma profissão que o meu pai, ela é que geria as coisas importantes, o meu pai era mais "o resto". E isso marcou-me um tanto como modelo a recusar, e assim foi.
Mas actualmente (os meus pais é história antiga) de facto isso só se passa porque a mulher concorda e aceita.

Saltapocinhas disse...

Em minha casa é mais ao contrário... O meu marido é que geralmente faz as compras - incluindo o supermercado,e eu é que nem sei o preço das coisas!

Saltapocinhas disse...

Ainda volto cá para te dizer que sigas este link
http://edukare.blogspot.com/2009/07/seja-doce.html
no blog do zé antónio e vejas o filme.
Tem a ver com machos.

Emiele disse...

Claro, Saltapocinhas, também existem esses casas, mas reconhece que são bem raros! Parece-me que conheço um e outro 'quase'...
(tu passas por cá tão tarde que só te respondo na manhã seguinte, como agora)

Emiele disse...

Sniff...
Não consigo entrar no link! Fica muito tempo com a ampulheta a abrir e ... não abre!
Tenho de voltar com mais tempo.