segunda-feira, abril 13, 2009

a força das aparências, ou

...as cordas de viola, e o pão bolorento. (sempre pensei que isto se dizia assim para rimar, que não vejo o que é que possa ter pão bolorento por dentro, e cordas de viola, por fora?!)
Meninos mal alimentados.
É uma coisa grave e preocupante. Sobretudo quando o facto nos é relatado pelo serviço social de um Hospital, o que nos leva a crer ser verdade.
Foi no Amadora-Sintra que uma Assistente Social chamou a atenção para crianças que lá aparecem mal alimentadas. E, se por um lado há crianças que lá chegam «com fome e em más condições de higiene e de vestuário» o que indica que de facto se pode tratar de uma situação económica muito grave, por outro há meninos “que chegam bem arranjados, mas mal alimentados".
Esta Técnica, chama a atenção para a força das 'aparências' “Andar com uns ténis rotos ou umas calças usadas estigmatiza-os como pessoas carenciadas”
O artigo chama a atenção para duas possíveis causas da situação das crianças que se apresentam bem vestidas mas mal alimentadas: ou são famílias que não sabem gerir convenientemente os seus rendimentos e organizar prioridades, ou pais que cedem na alimentação que as crianças querem sabendo bem que não é a melhor, mas preferindo não lutar com uma birra à vista.
Todos precisam de ajuda. é claro.

13 comentários:

zorro disse...

Ora viva! Cá temos o «nosso Populo» no seu 'formato' habitual.
Para ser franco eu também não passei por cá nestes dias de férias de Páscoa, como se calhar reparaste...
:)

Este tema é delicado, e a notícia do jornal é ambígua. Uma coisa são sapatos rotos (que isso ninguém vai querer e não apenas pela 'imagem') outra coisa são sapatos ou roupa 'de marca'. Andar com roupa 'usada' quer dizer o quê? Que não é acabada de estrear? Ou que está a cair de velho?

De resto quanto a alimentação, também acho que nem as crianças sabem comer bem, nem as mães ou sabem ou têm tempo para cozinhar como deve ser. É que andarem «mal alimentadas» é uma coisa, e «com fome» outra.

Joaninha disse...

Esta história da roupa de criança, é uma chatice.
Por aquilo que a notícia diz, trata-se sobretudo de crianças de 4 a 6 anos, ou seja ainda bem pequenitos. Mas, o certo é que mesmo pequenos muitas vezes fazem birras enormes por gostarem ou não de vestir algumas coisas. O que se fazia quando eu era pequena, 'herdarmos' coisas dos nossos irmãos ou primos, que já não lhes serviam a eles mas estavam bons para se usar, hoje raramente se vê. Uma criança mesmo pequena tem imensa roupa, e está habituada e isso. por outro lado, também só gosta de «comida de plástico» pizza, batata frita, popcorn, e iogurtes sofisticados.

Assim não se chega lá!

(quando digo 'sofisticados' são aqueles que para além do iogurte em si mesmo, tem outros produtos que não adiantam muito mas a publicidade faz crer ser fundamental!)

Emiele disse...

Olá Joaninha (já recuperaste a password ou lá o que foi?)
Não tenho tempo para responder a todos agora, mas vinha relatar que ainda a semana passada a minha mulher-a-dias, estava a queixar-se de que tinha comprado à neta - de 4 anos - uma saia muito linda, cor-de-rosa. Ela tinha começado por gostar, mas quando lha foram vestir fez uma grande birra e dizia que «nem morta!», esperava e desistiram. A avó estava muito ralada e vinha ver se lha trocavam, porque aquele trapinho de 20 centímetros, tinha custado mais de 50 € (dez contos. em escudos!!)
O interessante é que primeiro a avó, comprou aquilo, sem se sentir escandalizada; depois a menina começou por gostar e depois recusou; e finalmente a avó vinha trocar por outra coisa, talvez mais cara, para não perder o dinheiro todo!

Andamos com os valores de pernas para o ar!!!

King disse...

Sem ofensa, mas olha que neste post misturas várias coisas.
A alínea A, é um ponto que nem merece contestação: com a questão do desemprego, insegurança económica, etc, etc, há muita «pobreza oculta», gente que ainda se agarra às aparências até por uma questão de orgulho, mas anda a passar mal. E a verdade é que de um modo geral, primeiro são os pais que passam a fome antes de chegar aos filhos. E isso é alarmante.
Mas, pelo que entendi, neste post quiseste focar outra perspectiva - prioridades. Com um orçamento muito pequeno, é mais importante «as cordas de viola» do que o pão fresco?
É complicado. A verdade é que a tal «sociedade de consumo» tem uma força esmagadora. E são dois bulldozers a empurrarem em sentido oposto, ou seja a esmagar quem se queira opor: por um lado a pressão da tal aparência, das roupas novas de marca, por outro a pressão das fast-food, da comida que sabe bem e é popular mesmo que alimente mal!
Se mesmo para um adulto é difícil resistir, uma criança, podemos imaginar!

King disse...

Espera, e ainda me estava a esquecer de outro ponto para atenuar a culpa destes pais ou mães - o pouquíssimo tempo que há para cozinhar uma coisa equilibrada, porque o tempo que não se gasta no trabalho gasta-se nos transportes, e o preço dos produtos que 'devemos' consumir, os legumes, o peixe, a fruta...

sem-nick disse...

E quem não enfia em parte este barrete?
É claro que é quase impossível forçar uma criança a vestir algo que ela afirma «NEM MORTA!» (a verdade é que se chegou a esse ponto é porque no passado pode fazê-lo) e por outro lado também lutar contra a maré dos restaurantes fast-food para os miúdos é uma «missão impossível»!

Os comentadores amigos têm filhos pequenos, ou netos?
Aaaah.

estrela-do-mar disse...

«Todos precisam de ajuda. é claro.»

É isso, Emiéle.
Ajuda económica, por um lado, mas sobretudo ajuda psicológica.
Às vezes lembro-me das aulas de «economia doméstica» ou lá como se chamava, que a minha mãe diz que se davam na escola. É que muitas vezes nem é por mal, nem por preguiça, é que não se sabe mesmo como é que se aproveitam os restos.
A minha avó era exímia nisso!

josé palmeiro disse...

Difícil não concordar com coisa que aqui foram ditas. Todos tocam em pontos fundamentais, alguns serão muito urbanos, para o meu ver, mas respeitáveis. Criou-se ou foi criado um espírito de facilitismo e de consumismo, enormes. No meu tempo, e eu sou velho, dizia-se que "as crianças não tinham querer" e tinham que comer o que se lhe punha na frente. Muitas passaram fome, sim fome, de falta de comida, outras andaram rotas e esfarrapadas e até descalças, quantas eu vi assim. Os tempos evoluíram e hoje tal não acontece, pelo menos aos nossos olhos ou até porque não queremos ver! Há assim como que, uma demissão colectiva de reparar nessas situações. Depois, há sempre uns fast-foods, por perto que por uns cêntimos ou euros e um euro é duzentos escudos, tapam a fome a qualquer um...
Deixemo-nos de floriados e ensinemos os nossos filhos e netos que a terra, tudo dá, quando tratada com amor e carinho e se em vez de um bolicau qualquer, lhe dermos uma cenoura que eles comam com prazer, certamente lhe daremos um grande ensinamento e nós próprios constataremos que comprar essas guloseimas, é um profundo erro.
Quanto ao vestir, porque não reflectir no que a Joaninha nos conta. No meu tempo, também era assim e os meus filhos também tiveram esse ensinamento. Já os meus netos, no vestir, são mais selectivos.

fj disse...

Estou muito com King.Ou da comida de
plástico á roupa de plástico.

André M. Palmeiro disse...

Há tantas e tantas formas de se comer mal, sobretudo em países do mundo dito civilizado, porque no 3ºmundo o comer mal é muitas vezes não comer.
Pais relapsos sempre os houve, agora quando não há é difícil inventar e nem se pode recorrer ao milagre da multiplicação... para este é preciso qualquer coisa multiplicável!

Emiele disse...

Contudo, é impressionante o que – apesar de nem toda a gente o sentir – se tem melhorado de qualidade de vida nalguns aspectos.
Nem de propósito, acontece que hoje encontrei uma senhora com cerca de 70 anos que começou a trabalhar aos 14...! Como ajudante de cabeleireira. Ou seja, vinha de uma família como se diz eufemisticamente «modesta». E, a respeito exactamente do que as crianças hoje têm e desejam (não falámos do que contei aqui no post, atenção!) ela contou-me que se lembra de em criança desejar como prenda de anos «um litro de leite só para ela»!!!! Diz-me que sempre gostou de leite, mas lá em casa aquilo tinha de render.
Alguém imagina, hoje em dia, uma criança portuguesa (mesmo de um meio social correspondente) desejar isso como prenda de anos?!

André M. Palmeiro disse...

Sim, as coisas de facto evoluiram e criaram-se novas necessidades, muitas delas espúrias.
Agora, como é que com determinados rendimentos que por aí pululam e respectivo custo de vida, algumas pessoas conseguem fazer render o peixe, isto é que me embasbacado (e já não se trata do litro de leite, como tal, mas da boneca x ou do jogo Y); há quem opere ainda verdadeiros milagres...

Emiele disse...

André, o que eu quis dizer com esta historieta verdadeira é que tudo evoluiu muito. A nível alimentar também, naquela época nem era conhecido o iogurte por exemplo, de que hoje se utilizam 20 mil variedades distintas... E ouve um momento em que começou a consumir mais proteínas, e bem, mas actualmente dizem os dietistas que a nossa alimentação está hiper-proteica, o que não é nada bom. Por outro lado, também é sintomático na relação pais-filhos as regras terem-se quase invertido, e a autoridade familiar estar muitas vezes nas mãos mais pequeninas.