terça-feira, janeiro 22, 2008

Mas as crianças os velhinhos, Senhor…

Todos aprendemos de cor os versos da conhecidíssima poesia de João de Deus Augusto Gil*,
«Que quem já é pecador /sofra tormentos, enfim! /Mas as crianças, Senhor, / porque lhes dais tanta dor?!... / Porque padecem assim?!... » estando implícito que «quem já é pecador», paciência, se andar para aí a sofrer é por causa dos seus pecados.
A verdade é que eu estando na primeira linha na defesa das crianças que, de facto, são frequentemente vítimas sem nenhuns meios de defesa se não houver quem se interponha e faça vale os seus direitos, também me preocupa muito outra faixa sofredora e que também tem dificuldade em ouvir os seus direitos – os muito velhos.
Hoje anda por aí um conceito que era novo há uns tempos – a quarta idade. Porque a tal 3ª, a que começa ‘oficialmente’ aos 65 anda muito vivaça, e – dependendo de cada caso como é evidente – muitas vezes uma pessoa entre os 65 e 70 e tal ainda está muito válida, activa, enérgica, e com as suas capacidades a funcionarem muito bem. Na 4ª idade as coisas já assim não são. E a nossa sociedade anda num ponto de ruptura: as famílias não têm capacidades para cuidarem dessas pessoas no ambiente familiar como era há cem anos, e não há resposta de qualidade e acessível economicamente para serem cuidados em locais onde se sintam bem.
Hoje o DN trás duas reportagens sobre os maus tratos a idosos que têm aumentado de um modo escandaloso, e o modo como alguns 'lares' os tratam a poder de sedativos também nos deixa arrepiados.
Infelizmente tenho conhecido bem o tema de que se está a falar. Muitos dos lares, até quando estão bem apetrechados, têm falta de pessoal suficiente, talvez por serem os salários o que mais encarece essas estruturas.
Este é um tema incómodo.Porque enquanto para o problema das crianças se pode pensar em «famílias de acolhimento», em «adopções», em diversas soluções de modo a garantir uma vida mais feliz a quem a merece, no caso de um velhinho que muitas vezes tem de ser tratado a nível de higiene e alimentação como uma criança, essas alternativas são impossíveis. Mas quem lhes acode?
Atenção, até de um pondo de vista egocêntrico, é importante tomarem-se medidas. Notem bem que com o aumento de esperança de vida esse pode ser o cenário para cada um de nós dentro de uns anos…
Muito a sério.




* só agora à noite (depois das 20 horas ) voltei a reler este post e os respectivos comentários. Evidentemente que o erro foi de palmatória, justificável pela pressa com que hoje preenchi a minha “quota” de posts - já tardíssimo e tendo as ideias na cabeça mas sem tempo para reflectir em mais nada. Agradeço a correcção do poeta Augusto Gil, a quem não pretendi ofuscar o brilho e desejo muitas reedições do Luar de Janeiro :D

12 comentários:

Anónimo disse...

Hoje começaste bastante mais tarde... Passei por cá na hora do costume mas o estaminé estava fechado (mesmo que os posts tenham data anterior, a esta hora não estavam cá...)

Claro que este tema é de cortar o coração. A nossa sociedade é de uma desumanidade incrível para com os mais velhos e ... não produtivos! Porque numa visão mercantilista, uma criança, mais tarde pode «render« mas um velho já não vai render nada.
Pobres.
E pobres de nós!

Anónimo disse...

Um post muito triste, Emiéle.
E muito verdadeiro.

josé palmeiro disse...

Bom, por motivos conhecidos, este escrito toca-me em especial. Não, não é pela idade que eu pela exposição da Emiéle, ainda estou na segunda idade, mas é pela experiência que tive com a minha mãe. E daí, retiro que não é só nas instituições de acolhimento em que têm que viver(?), dads as condicionantes, mas por outra instituições que deveriam ser mais complacentes. Passo a contar. A minha mãe, fruto de uma queda, no lar onde estava, fracturou o fémur. Levada para o hospital de Évora, dpois de observada, nos tais corredores da urgência, ouviu uma conversa entre médicos, que me foi confirmado pela empregada do lar, que a acompanhou, mais ou menos como isto: "..., isto nem vale a pena operar, é para morrer!". Resultado, mexi-me e a minha mãe foi operada, recuperou e ainda se sentou e viveu mais uns tempos, sem sofrer as horrorosas dores,, que dava moostra, de cada vez que era mexida, nas manobras necessárias.
Acho que nada mais me resta acrescentar.

josé palmeiro disse...

Volto, porque acabei de saber que a "Bá" da minha mulher e cunhados que é conhecida pela "Dê Deus", acabou de ser operada, de urgência, a um problema intestinal. Até aqui nada de anormal, só que este problema arrasta-se desde há três anos, três, digo bem, quando ela esteve internada com as mesmas queixas e pela mesma razão. Foi-lhe perguntado se queria ser operada, disse que sim, coisa que posso confirmar, pois foi à frente da minha mulher, reunindo depois os médicos e a decisão, foi não operar, quiçá devido aos custos. Ontem à noite foi internada, de urgência, e operada durante a noite, tudo o que, numa situação de normalidade já poderia estar feito há três anos. Veremos como reage e se fica bem, pois só agora soubemos do acontecido. Velhos, que fazer? É a desumanidade em forma de cifrões!

Anónimo disse...

Essa conhecidíssima poesia de João de Deus lamentavelmente não conheço.

Cumprimentos
Augusto Gil

saltapocinhas disse...

viva o luxo emiéle!
Tens um anónimo "corrector"
Eu vinha para te corrigir mas o anónimo já o fez!
Pena que uma pessoa tão "culta" queira permanecer anónima!!

Adiante:
Este assunto é muito sério e também triste.
O josé palmeiro fala das experiencias dele, mas eu acho que às vezes acontece precisamente o contrário: fazem cirurgias e outros procedimentos a pessoas já muito velhas e debilitadas, qaundo podiam e deviam deixá-las morrer em paz (mas sem sofrimento é claro!)

E que fazer quando os próprios filhos ainda são pessoas independentes e que conseguem tomar bem conta da sua vida, mas já são velhos demais para tomar conta de pais ainda mais idosos?

Anónimo disse...

(bah, quanto à troca de autores,do que conheço da Emiéle é mesmo coisa de pressa)
O post é bem triste. Os idosos (ou velhos como se deixou de dizer apesar de não me parecer ofensivo) são realmente varridos para debaixo do tapete. Os exemplos que o Palmeiro conta são impressionantes mas eu conheço mais o lado que conta a Saltapocinhas - um prolongar de vida e de sofrimento sem a menor vantagem. Muitas vezes seria mais humano deixá-los terminar em paz e sem mais sofrimento. Contudo isso são as famílias que decidem, nem sempre da melhor forma.

Anónimo disse...

Os que conheço e estão em lar, é por ser completa e totalmente impossível estarem em casa. Só pessoas com tanto dinheiro que pudessem ter uma empregada interna todo o dia para cuidar deles...Mas a solução lar, está longe de ser boa! Têm sempre demasiada gente para os "cuidadores", e por vezes doentes mentais misturados. É muito chocante, parecem ante-câmaras do fim.

cereja disse...

Mary, tens toda a razão (bolas que não te escapa nada!!!) hoje, cá por coisas, atrasei-me muito e escrevi isto um tanto à pressa. "Entraram" aqui bem depois das 8 e meia! Foi aliás o estar a escrever meio à pressa, que me levou a trocar os autores da Balada da Neve, como felizmente houve quem o notasse. :))
Mas o tema em si como o Palmeiro o nota com o seus exemplos, é muito sério. Não é tanto o caso (os casos) que ele cita, a nível de saúde que me preocupam mais mas a relativa indiferença ou até impaciência com que são ouvidos e tratados, quer nos ditos Lares quer infelizmente até nas famílias.
Há casos de abandono psicológico que corta o coração; e até podem ter família mas é como se não a houvesse.

cereja disse...

Ainda volta para acrescentar uns pormenores. Quando falto em impaciência e uma certa falta de respeito é por muito que tenho visto. Tenho acompanhado de perto uma senhora, muito querida para mim, que tem mais de 90 anos e está acamada aí há uns 3. Tem algum dinheiro, o suficiente para pagar a uma empregada interna que trata dela. Mas quando a visito, choca-me o tom de impaciência com que se lhe responde e as discussões completamente inúteis e parvas, sobre questões sem a menor importância terminando por me confidenciarem em voz baixa "Ela é muito teimosa!!!" E as 'teimas' são coisitas sem a menor importância, onde seria facílimo fazer-lhe a vontade e confirmar que esta bom tempo mesmo que estivesse a chover... Que mal é que fazia???!!!
Fico piursa!

Anónimo disse...

Chegou-me agora um convite w a informação de que o Mário Alberto vai ser homenageado no dia 28 às 18 horas no Teatro D.Maria II.A homenagem é feita pela Barraca e a Camara associa-se.Cenarista,pintor,fundador ele próprio da Barraca ,irreverente e lúcido o Mário tem estado muito doente.Morador resistente do Parque Mayer é uma das últimas figuras de uma boémia culta da qual já quasi não existem sobreviventes.Era bom que quem possa se associe a esta homenagem que o deve deixar muito feliz.AB

josé palmeiro disse...

Preciosa informação AB.
Não poderei estar fisicamente, porque estou em Ponta Delgada, mas estarei de certeza com ele, no meu coração.