segunda-feira, janeiro 11, 2010

O difícil campo das emoções

Pensamos muitas vezes que depois de se ter lido «O Erro de Descartes» nunca mais se pensará em «emoção» da mesma forma mais ou menos romântica como falava.. Mas o certo é que entre nós, não-cientistas, se continua a utilizar a palavra emoção de uma forma diferente à da que aquele cientista usa. Mas o que me faz reflectir é o modo como se exterioriza (ou não…) as emoções sentidas, partindo do princípio que ‘se sentem’ mesmo.
É quase um ‘lugar comum’ a noção de que o modo como se demonstra uma emoção tem a ver com a educação, classe socio-económica, ou até raça. Quando um acontecimento atinge a comunidade cigana, por exemplo, é impossível não se ficar conhecedor do facto. Por outro lado, também se diz com frequência que os ingleses são conhecidos pela sua fleuma, por não mostrarem os sentimentos.
Extremos, que nos habituámos a aceitar.

Para quem, como eu, assiste com alguma frequência àquelas
séries tipo pastilha elástica (os ‘policias e ladrões’ de hoje) tipo CSIs, Números, Closer, etc, fica muitas vezes impressionada com a forma ‘supercontrolada’ (?!) com que é recebida a notícia da morte de um familiar. Se repararem, informa-se uma senhora que o seu marido, ou irmão, ou amigo, morreu de súbito e ela mostra um ligeiro choque, um vago espanto, ou nem isso. Muitas vezes a polícia volta lá na manhã seguinte, e vêmo-la a tomar o seu sumo de laranja matinal, impecavelmente maquilhada, penteada, vestida elegantemente, até fazendo humor com as perguntas que ouve.
Deixa-me sempre aparvalhada. Não esperava uma carpideira à grega, mas sim os tais ‘sinais exteriores de desgosto’, não falo no luto à antiga mas numa postura mais desgostosa… Ná. Nada disso. Morreu, morreu.

E tinha esta ideia, de que afinal era uma atitude lá saxónica, como servirem um banquete depois do funeral, coisas lá deles. Em Portugal uma pessoa quando sente uma alegria ou um desgosto usa um tom adequado, julgava eu.

Ora bem. Na sexta feira, estava num ‘minipreço’ qualquer e logo ao lado duas meninas estavam a arrumar as prateleiras sem me prestar grande atenção.
Pergunta uma:

-«Então, Sónia, o teu Natal, foi bom?..»
-«Foi. (e no mesmo tom) Só foi chato ter morrido a minha avó»
-«Ah! Do lado do teu pai ou da tua mãe?»
-«Da minha mãe; estas bolachas não devem passar para ali?»
-«É melhor sim, fica-se com mais espaço»
……………………
Não senhor. Não foi na tv, foi em Portugal e entre duas jovens pouco mais do que adolescentes. Nada as ligaria à Família Addams, eram bem bonitas, risonhas e alegremente vestidas.

Os sentimentos é que estavam num compartimento muito bem aferrolhado. Tão aferrolhados que parecia não existirem.


12 comentários:

Miguel disse...

É um terreno cada vez mais árido, esse das emoções Emiéle. Onde é que estão o afecto, carinho e ternura? Infelizmente somos cada vez mais uma massa amorfa onde não há espaço para sentir mas sim executar na qualidade de trabalhador, progenitor, amante, etc. Porque é a ordem natural das coisas. Porque o ter, quer numa abordagem de obter e/ou dar à prole, há muito que ultrapassou o ser. O eu há muito que se sobrepôs ao colectivo. Que vivências terão havido que permitam, de facto, sentir?

fj disse...

O Miguel parece-me observar bem, na sua aparente frieza.
Comecei a ler um pouco a pensar no lá vem elas com os ciganos, e propor imoções para as emoções deles ( estou certo de que desta vez aceitarias ), mas M. colocou as coisas no seu lugar, onde devem ficar, julgo.

silvya disse...

pois Emiele, os sentimentos como os conhecemos e os idealizamos não tem a ver propriamente com Dâmaso e os eu livro, que não nego ser bom, mas... eu acredito no amor romântico e continuo a achar quew sem ele a vida não tem sentido.
claro, que nesse amor, vem o amor maternal, paternal, fraternal e etc...
mas, há sempre uma mas, e esse não é só um erro doa anglo-saxónicos e seus usos e costumes. as pessoas infelizmente parecem ter um certo medo, receio ou será pudor em demonstrar afectos, quer por gestos ou palavras.
é veradade que nos filme e nas séries, as personagens sõ de uma reacção espantosa, mas por vezes são eles/as,os assassinos ou mandantes, como dizem.
quanto ao hábito do banquete pós funeral, também me faz confusão, e lembro-me sempre do filme "os amigos de alex", lembra-se?
é um dos meus filmes preferidos, e lembro-me muito dele. quanto ás duas meninas, que fazer?
temos de ver que hoje, existem famílias que não falam à sua prole da vida e suas consequências. faz-me confusão, na medida em que a vida e amorte estão ligadas e fazem parte do quotidiano. claro que não é estar sempre a falar disso. mas no meio disto tudo onde ficam os sentimentos de verdade?
tem razão. é confuso. eu não entendo e ainda bem. eu gosto de dar e de receber afecto. claro que chega a um determinado ponto, e somos mais selectivos, pois aprendemos que não podemos dar afecto, ternura, e carinho aquem não o sabe e não quer receber, sem contar que também não o sabe ou não o quer dar.
por vezes pergunto-me: será fruto de educação? recalcamentos?
pergunto-me isso muitas vezes, mas ainda não obtive resposta.
é muito bom, neste blog, colocar estas questões. é bom saber que existe alguém que também se questiona, e por isso saber que não estou só.
uma abraço.
silvya

Anónimo disse...

Há pessoas com mais ou menos dificuldade em exteriorizar os seus "sentimentos" (outro lugar comum) daí a "emoção" ser mais ou menos contida. Em alguns casos - quase imperceptível ao olhar. É um assunto apaixonante mas também muito delicado e não estou muito certa que as pessoas se estarão a tornar insensíveis, porventura estarão a recalcar mais. Não será por acaso que se fala hoje em dia tanto nas doenças"psicosomáticas".
Júlia

Joaninha disse...

Na história que contas, há afinal duas histórias. Uma, essa coisa de qu de fcto deve ser cultural a exteriorização das emoções (a frieza britânica com o calor meridional) e afinal a gente acredita que a alegria ou o desgosto sejam idênticos (mas isso é mensurável???) Por acaso, sou das que estranha o tom completamente neutro com que um familiar recebe uma notícia dessas quando vejo uma das séries que citas.

Contudo o caso que ouviste, é impressionante. Aparentemente a tal Sónia até se ia esquecendo do pormenor da morte da avó, mas a amiga que devia ser do mesmo material, não insistiu nada. Fez uma pergunta se situação e continuou a arrumação. Ao menos um «ai, coitada!» ou «e como é que te sentiste?» ou qualquer coisa assim...

josé palmeiro disse...

O facto deviver na "província", trás-me fora disso. Por aqui a coisa ainda se sente e se exterioriza, mas a história que contas ou as duas, como diz a Joaninha, com algúm apropósito, lembram-me uma anedota e uma "estória". A primeira conta que ao saber-se, no quartel, que tinha morrido o pai de um soldado, logo o pânico se estabeleceu, como dizer ao rapaz. Surge o sargento que, de imediato assume o caso e se dirige para o soldado e lhe diz; "333, morreu a tua família toda!". Rompeu o soldadinho, num pranto enorme, sem consolo. Aí o sargento, vira-se para ele e diz-lhe: " Não vale a pena estares com esse choro todo, foi só o teu pai!".
A "estória", recordo-a apesar do tempo. Foi numa aula de Física no meu sexto ano ( do meu tempo ), falávamos de vida e de morte com o nosso, saudoso, prof. Rebocho, um companheiro e amigo, para além de PROFESSOR, quando ele contou a situação passada com um cientista belga, de que não recordo o nome, quando lhe vão comunicar o falecimento do pai. O sr. ficou triste, preplexo e dirigiu-se a casa do seu progenitor, ao chegar, entrou no quarto e deparou com o cadáver, tendo demonstrado uma frieza enorme e, virando-se para os que o acompanhavam, disse: "Mas este não é o meu pai!
O meu pai, era uma pessoa alegre que me beijava e acarinhava que me sentava no colo, quando eu era criança, e por aí fora. Acrescentou que, quando muito o que ali estava era o cabide do seu pai!"
Cinquenta e alguns anos depois, ainda recordo a história e o seu sentido. O resto, deriva mais dos tempos que atravessamos, das vivências que tivemos ou não e de tudo o que o Miguel disse.
Emiéle, agora que nos custa ouvir, isso custa!!!

kika disse...

Acho que as pessoas são cada vez menos emotivas e parece-me que não há o problema de não querer mostrar as emoções , como os anglo-saxónicos cuja educação aponta para a contenção !
Parece-me que há uma adaptação do ser o humano as perdas. É como que uma aceitação do irremediável!
A expressão ´´a vida continua ´´faz cada vez mais sentido.
Como diz o Miguel o eu ultrapassou o colectivo,
pois nunca tivemos tanta liberdade de exteriorização!

kika disse...

Acabo de ler a história do Zé Palmeiro que é muito bonita, senti isso a semana passada com a morte de uma colega vitima de cancro!

Alex disse...

Sem pretender retirar uma virgula de razão àquilo que dizes, então eu que acho que chorar é como rir, faço-o onde e quando tenho vontade e ninguém tem nada com isso, pergunto assim à laia de advogada do diabo: e a avó da menina, seria uma daquelas velhas chatas e tiranas que lixam a humanidade sempre que podem?

Emiele disse...

Ena, tive já tanta opinião que nem sei como responder... Se calhar faço por partes.... :)
Miguel, eu acho que o afecto, carinho, ternura existem e existirão. A diferença entre o «hoje» e o romantismo de há cento e tal anos está numa espécie de 'moda', do «parece bem, ou parece mal». E isso é detestável hoje (dantes eram tão natural que nem se pensava nisso. Digamos que havia mais «sinais exteriores de desgosto». Reparem no luto. Hoje o luto quase desapareceu, mas na minha infância isso era graduado rigorosamente - o luto por marido era tantos anos, por irmão tantos meses, por sogro outros tantos. Levava-se muito a sério. Hoje desapareceu. E contudo um desgosto grande de hoje, pode sob a forma de «depressão» levar mais tempo a passar do que o luto das nossas avós!
E agora saltando para a última a escrever, Alex. Sabes que tens razão e a dita avó poderia ser uma pessoa distante de quem a neta não sentisse particular falta. Contudo, o tom em que a conversa foi travada, olha que me chocou. Revelava a mais absoluta e total indiferença. Repara que ela ainda começou dizendo que o Natal foi bom... Creio que se fosse um episódio de telenovela o entusiasmo seria maior. Isso é que me impressionou. Uma frieza de sentimentos que me deixou também... fria.


Bem, mas já volto a responder ao fj, palmeiro, Kika, Silvya...

Anónimo disse...

Nem de propósito:
"É mais fácil expor o corpo do que as minhas emoções" diz a Soraia Chaves!!!!
Estão a ver?
´r que as emoções é coisa delicada....

Emiele disse...

Zé Palmeiro, a tua história é um espanto. E uma psicologia impecável, perante tal susto o resto já nem parece tão grave.
Aliás há montes de piadas desse tipo do género «nem o pai morre nem a gente almoça?»

Por mim acho que cada um deverá mostrar os seus sentimentos como muito bem lhe apetecer, sem ser para «o público». Contudo quando eles são muito reprimidos como vejo nessas séries americanas, ou com a frieza da menina do supermercado, ainda me faz alguma impressão.