quarta-feira, agosto 12, 2009

Evolução dos costumes

É uma área da... (não sei se lhe posso chamar sociologia, se é muito pretensioso) enfim, do comportamento social que me fascina.
Um ponto importantíssimo é a linguagem verbal, é certo. A mudança, ao longo dos anos, do modo como nos exprimimos é interessantíssimo e uma área do conhecimento que, estando sempre por definição incompleta porque o tempo flui, é fascinante. Mas é também extremamente importante, e muito curioso para observar o comportamento, a linguagem não verbal, o modo como ao longo dos tempos vamos alterando a forma como exprimimos - por exemplo, os cumprimentos, despedidas, etc. Não estou a pensar em culturas diferentes, orientais ou africanas. Isso seria óbvio, o que acho interessante é a mudança na nossa Europa através dos anos.
Hoje em dia, por exemplo, tornou-se habitual o cumprimento através do beijo na cara. Não apenas às crianças, ou entre mulheres, o que já era ‘tradicional’, mas entre mulheres e homens mesmo que se vejam pela primeira vez e estejam a ser apresentados. Cumprimenta-se de beijinho. Beijinho na cara, atenção. Porque, por outro lado, desapareceu por completo o beijo na mão. Há cem anos era esse o habitual, não apenas do homem para a mulher, como das crianças para os adultos que respeitavam, pais, padrinhos… Passou completamente. Assim como deixei de ver o beijo na testa, também muito habitual há umas dezenas de anos da parte de um adulto para com uma criança ou adolescente. Como cumprimento hoje é raro.
Bem, mas fiquei a pensar em tudo isto, porque li há minutos um parágrafo muito engraçado.
A cena é de um livro da série «Roma Sub-Rosa» de que já em tempos aqui falei. Distraio-me bastante com esta colecção, uma espécie de ‘policiais’ passados na Roma antiga e que narram com imenso realismo o dia a dia romano nesses tempos. E a certa altura leio:

«Avancei e bati educadamente à porta com o lado do pé. Não houve resposta. Bati outra vez e esperei. Estava prestes a bater com os nós dos dedos, fosse pouco educado ou não, quando a porta se abriu.»

E esta?!
Se hoje alguém chegasse junto de uma porta e lhe batesse com o pé, fosse de lado fosse com a ponta, arriscava-se a ouvir das boas. Mas há 2100 anos, a falta de educação era bater com os nós dos dedos…
Mudámos bastante, não?!!!!


17 comentários:

kika disse...

2100 anos é muito tempo e não me admira essa evolução.
Há dias vi o Sr Sarkozy a cumprimentar o Sr Barroso com dois beijos na face.
Parece que estamos a querer a evoluir lá para aqueles lados árabes.
Bater na porta com os pés não me parece nada bem, associa-se
actualmente à violência e coitada da porta, sem culpa alguma!!!
Cá em casa só o cão é que fazia isso!!!!

mary disse...

A questão dos beijos é engraçado prque depende muito de país para país. O oriente da Europa beija mais, mesmo entre homens e como disse a Kika em França dão 3 beijinhos. Na Itália também os homens podem dar beijos. Em Portugal não era nada costume, e ainda hoje aquilo que referes é sempre os beijos serem entre mulheres e dados e recebidos por elas.
O quanto ao famoso beija-mão desapareceu por completo quer às senhoras quer das crianças aos crescidos.

O «bater-se à porta com o pé» é um espanto!!! Nunca tinha ouvido.

Joaninha disse...

Essa série do Roma sub Rosa é muito bem escrita e dá uma perspectiva do dia a dia romano sensacional.
Eu li os livros todos e tenho pena que não haja mais, porque são excelentes para férias!!!
......
Não me lembro desse pormenor do 'bater-à-porta' mas há muito giríssimos!

sem-nick disse...

De facto as reviravoltas que os costumes levam deixam-nos de boca aberta.
Essa de má educação bater com a mão e elegante bater com o pé, é formidável!!!

mfc disse...

A forma dos costumes mudou... mas não a sua substância!

josé palmeiro disse...

"Dê-me a sua benção!". Era a frase que acompanhava o beija-mão dos mais novos. Nunca a pratiquei mas, lembro-me bem ver praticá-la.
De resto estas mudanças, nunca são novas, são sempre reflexo do andamento da "roda", que é o tempo. Na moda é mais evidente essa evolução, esse retomar coisas que já passaram e nos "costumes" também, mais lentamente isso acontecerá.
Os livros não os conhecia, assim com esse titulo e formato, mas lembro-me bem de um colecção dos "Livros do Brasil", se a memória me não falha que eram a "Vida Quotidiana em ..." vários lugares, não de forma policial mas mesmo só de descrissão de como era a vida nesse lugares e civilizações.
No Brasil, isso vê-se mas telenovelas, batem-se palmas.

A Senhora disse...

Outro dia eu estava justamente observando, para os meus filhos e marido, as mudanças desses hábitos.
Antigamente (!!!) agradecia-se com um "obrigado"ou "muito obrigado". Hoje fica no "valeu", "falou", e nào existe nenhum compromisso em retribuir o gesto do outro. Isso, evidentemente, aqui no Brasil.
Os outros cumprimentos, como beijinhos, aqui varia de região para região do país.
Agora "chutar"a porta, mesmo que de lado do pé... ui! :))

beijinhos

Joaninha disse...

Lembro-me muito bem desses livros, Zé palmeiro. mas esta série de que fala a Emiéle é diferente. São como que uma espécie de romances históricos (quero dizer não «uma espécie», são mesmo romances históricos) com uma personagem principal que é uma antepassado do que seria hoje um detective. E perpassa lá um período muito interessante da História do Império Romano. Vale a pena ler. talvez começar pelo primeiro «Sangue Romano».
Vais gostar. :)

Joaninha disse...

E é o tipo de literatura muito boa para férias!

zorro disse...

Qual é a dúvida que é sociologia? Claro que é. E tem muita piada estas evoluções dos costumes, neste caso os cumprimentos - o meu avô falava-me sempre com um beijo na testa, sim - e que graça, isso que contas de bater à porta com... o pé!!!
Bater palmas faz-se no Brasil, lembrou o Palmeiro, mas cá usava-se também pelo que lemos nos romances de há 100 anos. E ainda se usava, lembro-me de ser pequeno e ouvir, para chamar o «guarda-nocturno».
Só que hoje nem vemos isso dos guardas-nocturnos cheios de chaves, tlim-tlim-tlim..
:)

estrela-do-mar disse...

Para compensar o aperto de mão, deminuio de frequência. Claro que ainda se dá muito, mas muitas vezes quando se chega a um lado lança-se um Olá! geral e não se apertam mãos. E os jovens fazem um especial, palma com palma, «dá-cá-cinco».
Cada época com seu uso, não é?

Mas achei engraçadíssimo essa do pontapé na porta! Olha que raio de ideia!!!

estrela-do-mar disse...

Ups!!
Gralha: diminuiu, é claro, não acaba em O!!!!!! Parva!

Maria disse...

Emiéle, só um aparte - correndo o risco de "ser pretensioso", ou não, acho que esse teu pensar sobre o comportamento humano do ponto de vista social/cultural, também, poder-se-ia enquadrar na "Antropologia Cultural", não?!
Eu não direi, como tu, (penso teres formação académica/estudos próxima dessas áreas) mas, sim, à minha maneira, também sou uma apaixonada pelo tema - "Evolução dos Costumes" e observo e até pesquiso um pouco sobre isso. A minha actividade profissional, há uns anos, tem sido como figurinista e decoradora de cena em séries de época para televisão e isso requer - pensar a "personagem" no tempo, no espaço, estatuto sociocultural e perfil psicológico, tudo isso irá influenciar o figurino e no caso da decoração a escolha dos objectos de cena, de modo que eles sirvam o seu propósito - caracterizar a "personagem". Emiéle, desculpa-me, falei demais da minha experiência para complementar o meu fascínio e empatia sobre o tema do teu "post"!
«Avancei e bati educadamente à porta com o lado do pé. (...)» - bater "educadamente com o lado do pé" provavelmente nu, ou com as ditas "sandálias-gladiadoras", não terá o mesmo significado de hoje -
“Acabei por dar um pontapé na porta...” eheheh!

raphael disse...

Ainda o que gostei mais foi «Estava prestes a bater com os nós dos dedos, fosse pouco educado ou não» lololol!!! Essa é que é formidável! Não é o tal bater com o lado do pé, é ser pouco educado bater com a mão!
Há cada costume!!!!!

zorro disse...

Maria, pelo contrário os teus comentários de uma forma geral, até nos ensinam coisas e despertam para algumas coisas a que não prestávamos atenção.

Levantas a ponta do véu a falar da tua actividade e já se entende que devas ter uns conhecimentos tão alargados -deves fazer muitas pesquisas.
Realmente os romanos não deviam andar com «botas da tropa» mas de qualquer modo nós dominamos pior um pé do que uma mão (excepto os jogadores de futebol!)

kika disse...

Discordo um pouco de que tudo já lá vai, e que estamos agora quase numa de" valeu" "falou", bem à moda brasileira.
Ainda há quem use o beija-mão e ainda não há muito tempo uma menina de 17 anos, foi dormir e despediu-se de nós com um beijo na testa, que por sinal achei bem enternecedor.
Em França, usam três beijos como diz a Mary? Mas o que eu vi no cumprimento dos presidentes que referi, foram dois e já fiquei boquiaberta,pois não estava à espera.
Estes cumprimentos muito próximos, em tempo de pandemias... é melhor deixar um pouco de lado, ou já estarei a exagerar..

Emiele disse...

Bem Kika, dá a ideia de que nos costumes também «nada se cria, nada se perde, tudo se transforma» não será?
Não podemos dizer que é como era dantes em quase tudo, contudo a essência continua a existir, é claro. Nessa coisa dos beijos, é certo que ainda há quem d~e beijos na mão ou na testa, como aqui citei, o que é é que é um caso em mil, e não como lembrou o Zé Palmeiro, ser um ritual onde se dizia «a sua benção». Era uma época onde haveria mais distância, hoje a relação na família é mais... «familiar» :)

Quanto à série desses romances históricos que referi (e ainda não falei dos tais suecos, que devorei os dois volumes de 600 páginas cada um logo no início da semana!!!) são de facto mais uma espécie de romance histórico, não está na linha do «A vida quotidiana no tempo de ---» de que fala o Palmeiro. Também me lembro muito bem desses. Mas no caso em que falo, se bem que se aproxima do romance histórico, o facto de ser na antiguidade dá-lhe mais graça, e a intriga um tanto policial, torna mais engraçado.
Claro que não é nada do outro mundo no capítulo da literatura!!!

Maria, se calhar é bem colocado nessa categoria :) E uma vez que desvendas um pouco da tua vida e interesses, agora entende-se melhor que tenhas tanta informação. Até por «dever de ofício» deves estar informada, não é? Um bom profissional faz assim. E entendo agora como sabes tanto de arte.

Senhora, obrigada pela 'contribuição' da experiência brasileira. O engraçado é que por cá também estamos muito contagiados por expressões brasileiras. Diz-se «tudo bem?» como cumprimento, o que é muito cómico porque nunca está tudo bem, é evidente; nem tudo mal, já agora...
:)