terça-feira, maio 12, 2009

A (in)segurança

Ciclicamente vêm à abertura dos noticiários e às primeiras páginas dos jornais notícias sobre tumultos em certos bairros mais problemáticos, violência, agressões, roubos.
Esta semana foi na Bela Vista, o mês passado no Portugal Novo, etc.
Isto faz com que os motivos de preocupação e as conversas obrigatórias entre nós se centrem na questão da segurança pessoal. O grande cavalo de batalha que vai gerando preocupações que se auto-alimentam.
Sempre considerei que antes de se entrar no jogo do pânico, devíamos pensar bem de que tipo de bairros estamos a falar e porque é que isto tudo sucede. Sem extremismos, sem demasiada tolerância, sem raiva nem medo. Nas grandes cidades de todo o mundo passam-se histórias destas, e decerto há uma explicação. E só podemos evitar isto se formos à raiz dos problemas, não acredito que seja multiplicando a polícia, criando um polícia para cada delinquente...
Mas o interessante é que tudo isto tem mais de uma faceta.
Como já aqui tenho dito, moro em Lisboa, por acaso até perto do tal «Portugal Novo» das reportagens alarmantes. Ontem de manhã, o meu filho ia sair de casa antes de mim e não encontrava as suas chaves. Procurámos nos locais óbvios, e por fim nos menos óbvios, mas sem sucesso. Nada de chaves! OK, «vai andando que à hora a que vais voltar eu estou em casa» aconselhei. Entretanto iria vasculhar melhor a ver se as encontrava.
E acompanhei-o à porta, para um beijinho de despedida.
Ao abrir a porta senti tilintar.
Lá estavam elas, penduradas na fechadura!
Na véspera, Domingo, ele tinha subido a escada carregado com muitos sacos, e pesados, que poisou para abrir a porta. Abriu-a, empurrou os sacos para dentro e deve ter voltado a fechar a porta com um empurrão do braço ainda carregado com qualquer coisa.
E as chaves lá ficaram.
À vista.
Com um porta-chaves berrante.

E isto no centro de Lisboa, junto de um bairro problemático.


18 comentários:

miguel disse...

Bom, sabes que é clássico os ladrões executarem as suas operações "longe" da sua área de residência lol. A não ser que estejam desesperados (toxicodependentes, por exemplo).

Quanto aos bairros problemáticos, não sei o que te diga a não ser que a lei e a ordem devem ser repostas porque nesses mesmos bairros mora uma grande maioria que trabalha, tem ou tenta ter uma vida normal, tem filhos a estudar que ambicionam um melhor futuro e tudo o mais.

O rótulo é que torna tudo mais "complicado" e "amplificado" tipo ghetto à hollywood...

Emiele disse...

Miguel, eu só contei este caso (verdade verdadinha) porque achei graça a tudo ter acabado bem. e também porque acho que apesar de haver sem dúvida mais roubos e violência, isto ainda não é o faroeste de que muitas pessoas falam.
E sem a menor dúvida que seja em que bairros forem toda a gente deve ser protegida; o importante é ir um pouco mais longe e entender porque é que (tal como em Paris) estes grupos de adolescentes e jovens se organizam para estas operações de vandalismo. Que valores é que têm? Que escolhas fazem?
Era um pouco esta semente de reflexão que hoje, a brincar, eu quis lançar para aqui.

King disse...

Fizeste bem em (re)lembrar os tumultos de Paris. Não sei se t~em o mesmo sinal, mas se não têm podiam ter. Afinal são jovens desocupados, sem perspectivas de terem ocupação tão cedo, e que escolhem esta forma de protesto desadequada e virada contra quem não tem culpa, mas a questão é exactamente pensar porque é que eles estão em revolta.
E é uma pescadinha de rabo na boca, porque não é na cadeia que vão assentar.
Mas gostei da tua reviravolta no post. essa de deixar as chaves à porta, é mesmo o máximo.
Já deu para ver que na tua família «pôs-lhe Deus a mão por baixo»!

zorro disse...

Muito bom post, Emiéle.
Este esquema do pouco e condensado, resulta.
(volto a repetir que para comentar com calma, só lá para a hora do almoço)
Inté!

sem-nick disse...

lol!
Repararam no pormenor do tapete, na foto?
Welcome?!
:P

josé palmeiro disse...

Sim, o "bem-vindo" é que tira, todo e qualquer prazer, ao ladrão!!!
Quanto ao que contas, já me aconteceu e fiquei cheio de medo, não fosse uma daquelas doenças modernas dos séniores, mas não, esquecimentos desses, acontecem a todos e, felismente, sem consequências na maioria das vezes.
Mas lá que há que não abusar da sorte, isso é verdade.

Joaninha disse...

Olha, olha tantos comentários ainda antes das 10 da matina! Dantes quem vinha abrir aqui a loja era eu e o Zé Palmeiro. Agora ele «foi para mais tarde» e apesar de continuar a vir à mesma hora já chega depois (que confusão!!!) e eu estou mais preguiçosa :)
Estou a gostar deste tipo de posts. Acho alguma semelhança entre o de ontem e o de hoje - a propósito de algo que passa nos media, dás uma visão baseada na tua própria experiência.
Bom, como dizes na resposta ao primeiro comentário que «a brincar, quiseste lançar para aqui uma semente de reflexão» venho ver o que posso reflectir. :)
O pior é que o principal está dito. A juventude que vive situações de border-line nas periferias das grandes cidades, tomam o caminho da revolta violenta e provocadora. mas é uma pescadinha de rabo na boca, porque mesmo que lhes oferecessem trabalho talvez não o aceitassem. Mas isso só os sociólogos saberão dizer.

Joaninha disse...

Espera não quero ir sem responder ao Zé Palmeiro:
Olha amigo, a gente quando começa com esquecimentos atira logo a culpa para a PDI, mas é mais conversa... Repara que nesta história, o esquecido foi o filho da Emiéle,que lá idoso não pode ser!
:P lololol

Lembrei-me agora daquela história muito cómica que ela contou do marido de uma amiga, que disse a um sujeito das vendas forçadas que era o filho da mulher, provocando a fuga do vendedor...

Mary disse...

Realmente essa coisa da segurança ou insegurança, é em parte subjectivo. Há quem se sinta sempre inseguro, por mais defendido que esteja, e quem se rale pouco mesmo que corra algum risco.
E tu tens realmente uma sorte do caraças, mulher!

josé palmeiro disse...

Eu reparei, Joaninha.
Até o digo no comentário, mas, agradeço o teu cuidado.

estrela-do-mar disse...

Assim dá para ler e comentar!
O blog fica mais levezinho...
:)
Começando pelo fim, tal como disse a Mary, tens uma sorte do caraças, é o que é!!! ou os ladrões acham que é tão fácil que deve ser uma armadilha lol!!

Quanto à tal instabilidade e insegurança, é evidente que deve ser reposta a ordem nos bairros que andam agora em polvorosa. Bolas, estamos num Estado Democrático, não?! É evidente que se há vandalismo, destruições, agressões isso tem de ser travado, nem se discute.
Mas também me parece de reflectir no ponto que aqui assinalam: porque é que há tanta revolta no ar? Porque é que os subúrbios das grandes cidades são focos de violência? Se os tornamos verdadeiros guettos só da aumentar a onda. Mas não sei nem faço ideia de como o evitar.

zorro disse...

Bem, agora que tenho tempo, vejo que afinal me devia remeter ao velho «faço minhas as palavras dos oradores que me antecederem»
:)
Todos vocês, à vez, foram dizendo o que eu pensava.
de qualquer modo é um problema complicado mas que não ganha nadinha em ser empolado, como tantas vezes a comunicação social faz!

Maria disse...

O "facto" que, nos fala a Emiéle, eu também tenho seguido, pela mesma via, no conforto do meu sofá e o que vejo (com mais ou menos subjectividade e/ou manipulação dos media) são imagens brutas, violentas e de agressividade mútua que, não obstante a distância (física), não deixo de ficar preocupada e pensar na “(In)segurança”.
A s considerações que fazes no sentido de se encontrar uma forma mais adequada e eficaz de abordar o problema, são legítimas.
“E só podemos evitar isto se formos à raiz dos problemas” como dizes e eu respondo, empiricamente mas, com boa vontade: - Será preciso repensar e adequar aos novos cenários sócio económico.
Desde o 25 de Abrir que se avançou alguma coisa e há algum trabalho feito (adquiriram-se práticas novas, criaram-se Instituições, formaram-se técnicos, atribuíram-se subsídios, apoios às vítimas, escolas profissionais, etc, ….) Nunca é o suficiente e por vezes marca-se o passo e até se recua, o que neste momento é altamente perigoso, sob pena de não conseguirmos resgatar um futuro minimamente aceitável para estes jovens.
E ainda devíamos ir mais longe, sei lá, estes jovens tiveram uma infância de risco, sem afectos, entregues a si próprios, à mercê de todos abusos dentro e fora de casa filhos de “indivíduos” que passaram o mesmo e não evoluíram.....Teríamos que ir muito longe mesmo!
A resolução, passará sobretudo pelos critérios e prioridades dos “donos das vozes” deste país e quiçá deste continente e com empurrãozinho de todos nós; sozinha sinto-me impotente!
Grande Lençol e não falei da “chave”vs “Segurança”; já agora: comigo isto é o trivial (mas o “seguro morreu de velho”, “Leonor vai descalça, formosa e não segura” esta não me está a soar bem)


Outra coisa – Joaninha sou noctívaga só às vezes e quase sempre por obrigação:))

Maria disse...

Penso que a "Leonor vai pela relva..."
A minha cabeça,foi de tanto teclar.
Boa Noite a todos!

Emiele disse...

Olá Maria. Obrigada pelo «lençol» é mesmo isso que eu queria, que reflectíssemos um pouco, mas não que se encontrasse soluções. Isso seria muito, tanta gente preocupada com isto e nós aqui quatro ou cinco gatos pingados a salvar o mundo :)

Quanto ao poema de Camões, conheço-o muito bem, cá por razões pessoais...
É assim:

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Mariquinhas disse...

Ah pois é!Obrigada e assim todo completo é um presente.
Enviei o desenho, o ficheiro é muito pesado, ochalá que chegue.
UM segredo, aqui que, ninguém nos ouve....O chocalheiro do gmail,revela a minha conta google,pensava eu que seria só utilizador.Fica entre nós.

Emiele disse...

Obrigada.
Claro que não vi nada, nem me interessa, para além do ficheiro.
:)
Vou aproveitar o desenho, sim!
Deixo-o aqui amanhã.
Muito obrigada.

Anónimo disse...

Os partidos de esquerda desculpam sistematicamente a criminalidade com o a pobreza e o desemprego. Parece terem receio de uma atitude mais enérgica na luta contra o crime. Será que ficaram traumatizados desde os tempos do fascismo? Esta postura está a desorientar o seu próprio eleitorado natural: os mais pobres que são também os mais desprotegidos face à criminalidade. Assim, os partidos de esquerda têm muita responsabilidade relativamente ao crescimento da extrema direita que tem um discurso bem mais sensato sobre o combate crime. Barack Obama – que se poderá considerar de esquerda – prometeu ser implacável no combate ao crime e defender ao mesmo tempo os mais desfavorecidos. Não me parece que isso seja incompatível.

Todos os dias vemos fechar Empresas jogando muita gente no desemprego e na pobreza. Frequentemente, ficam muitos meses de salários por pagar, levando essas pessoas a uma situação de desespero. Se fosse esse o motivo dos desacatos que se têm visto nos bairros sociais, então eles aconteceriam preferencialmente nas manifestações junto aos antigos locais de trabalho, onde se aglomeram muitas pessoas na mesma situação. Não! o que se viu no Bairro da Bela Vista foi a homenagem a um criminoso abatido em flagrante pela polícia, numa atitude de desafio à própria polícia como que para testar a sua capacidade de reacção e para uma demonstração de força no bairro.

O crime tem que ser todo ele combatido, seja o chamado de "colarinho branco" seja este como o que tem sido notícia no Bº da Bela Vista "o crime ranhoso", mas,infelizmente, este país está a afundar-se em ambos. NÃO SE DEVE DESCULPAR NEM UM NEM OUTRO. HÁ QUE COMBATER AMBOS, jÁ!!!

Zé da Burra o Alentejano