segunda-feira, setembro 10, 2007

Mundo Cão?

O suplemento do Público de ontem, Domingo, trazia entre muitas outras duas reportagens que chamavam a atenção. Uma delas importante, outra um tanto na categoria do fait-divers. Mas talvez não me tivesse chocado tanto se não fosse o caso de, por paginação, elas virem em sequência.
Falava-se primeiro de portugueses, para o caso isso era no interior, zona da Guarda, mas possivelmente passa-se por vários sítios, que ainda hoje vivem sem água canalizada, sem electricidade, sem casa de banho, em condições chocantes de solidão e pobreza. Entrevistaram várias pessoas que foram contando casos de miséria e desgraça a que não se poderá ficar indiferente. Mas, virava-se a página, continuava-se a ler, e ia-se para o Japão. Pelo que ali se conta, nesse país bem desenvolvido, existem mais cãezinhos de estimação do que crianças com menos de 10 anos. A população está a envelhecer, mas tem crescido espantosamente os mimos para os animais, que «vestem» em lojas especializadas com artigos estrangeiros, têm uma panóplia de brinquedos, de cuidados requintados, de ‘fatos’ que me fizeram voltar atrás na leitura por diversas vezes, tal o espanto. Uma das damas entrevistadas até usa um carrinho de bebé, porque algumas lojas não permitem a entrada de animais e assim entra em todo o lado a empurrar esse carrinho…com os cães lá dentro. *
Como comecei por dizer, que os japoneses mimem animais com esse desvelo e que haja portugueses a viver em condições sem a menor dignidade, chocou-me sobretudo por serem notícias que se sucediam sem intervalo.
Não se pode falar em mundo-cão, porque esse é bem melhor que o mundo-homem.

*Pode não se acreditar mas há perucas para cães, máquinas fotográficas que trazem ao pescoço para o dono saber como foi o seu dia, telemóveis para ouvirem a voz do dono e ladrarem em resposta e, claro, um GPS para se saber onde pára o bicho. E há mais, até uma «cadela insuflável» se pode arranjar.

10 comentários:

Anónimo disse...

Olha Emiéle, tu também como o Público de ontem, encostaste estes dois posts de modo a tirarmos conclusões. Era esse «interior» a que o Sócrates se referia, penso eu. E também li o Público ficando chocada.
Claro que quanto aos cãezinhos, primeiro pensei que eram pessoas 'doentes', só podia ser. E muito ricas. Continuo a pensar. E para ser franca para além do sorriso (essa da cadela insuflável é o máximo!) fiquei com uma certa tristeza porque também revela uma solidão do caraças! Agarrar-se assim a um bicho é sinal de que não há um ser humano que satisfaça o que revela medo dos outros.
Coitados.

Anónimo disse...

O revoltante é que por cá também há disso, se fosse só no Japão!
Até gosto de animais. Só que com toda a franqueza, um bicho é um bicho e um homem é um homem.
Esses cães (??!) se é que ainda o são devem sentir-se mal. Telemóvel para ladrar?!!!

Anónimo disse...

Fui ver lá ao site e ainda há mais disparates de que aqui nem falas! Aquele «ginásio» canino, com passadeira rolante para ele dar o seu passeiozinho é o máximo!....

Anónimo disse...

Acrescento que ainda pode ir mais longe. Concordo que pode ser por solidão porque quanto mais ricos os países mais individualistas os seus cidadãos. Noto que há imensos animais de estimação em países ricos como no que vivo. Como comentou e bem uma amiga africana, refugiada de guerra, nada mais fácil do que ter um animal para preencher esse vazio. E cães obedecem, abanam a cauda, são gratos à ajuda, não contrariam os donos, nem exigem que os tratem com mais dignidade ou que respeitem as suas ideias e ficarão dependentes desses donos carentes durante toda a sua vida canina. Ajudar uma criança, por ex.,é um desafio muito maior. Qdo esta se apercebe que é um ser independente do educador, começa a protestar, a contrariar etc, até atingir a maioridade e pôr-se "a milhas" se não lhe agradar mais o tratamento. Aqui nos Países Baixos tb acho que vào por vezes longe demais com os bichos. Desde alguns meses que há até um partido de defesa dos animais no parlamento. As intençòes sào boas porque lutam para controlar a indústria biológica, o transporte doloroso e cruel de animais por toda a Europa em camiões superlotados e os animais usados como cobaia. Mas é estranho que separem os direitos dos animais dos humanos e lutem só pelos animais porque estes não o podem fazer. Mas desde que existam crianças ou adultos vivendo na miséria, morrendo de formas extremas: à fome, doenças por falta de medicamentos ou vacinas, pisando em minas, com golpes de catanas ou tiros de metralhadoras, parece incrível que façam este tipo de apelos em defesa só de animais...

Anónimo disse...

Não sabia ,Lia,desse partido no parlamento...nem sabes a "dica" que me deste!E tens muita razão quando analisas o caso pelo lado da não resposta,da não oposição.Além de que é minha convicção ,por vários casos doentios que conheço,que quem gosta tanto assim de animais não gosta mesmo de pessoas.AB

josé palmeiro disse...

Felicito-te pelo escrito que aqui deixaste. Depois pelos comentários, que revelam o bom senso de quem te acompanha. Gostei muito das notícias e da análise da Lia.
Eu gosto muito de animais, já o referi diversas vezes.
Mas acho um atentado esse tratamento dado aos animais. Não é tratar bem, é alterar, todo o seu sistema biológico. Quando se luta contra o cativeiro de determinadas espécies, que servem de atracção nos mais variados jardins zoológicos, permite-se que se faça o mesmo, a esses que, pomposamente se chamam de companhia e que se usam para substituir os afectos, que deveríamos dar, aos nossos iguais. Acabemos com essa hipócrisia e assumamos o nosso papel de humanos.

josé palmeiro disse...

Volto só para dizer que essa da "insuflável", já conhecia, mas achei tão aberrante que, não me deu para comentar. Contudo, aqui e perante a notícia, justifica-se plenamente.

Anónimo disse...

Tens razão AB. Esses amantes doentios de animais exageram mesmo e parece gostarem menos ou nada de pessoas. Ainda tenho mais exemplos de ficar de boca aberta...que só dá para comentar na NL em voz alta com amigas estrangeiras (com ideias mais "latinas") ou pessoas sem animais, por opçào. Senão seria uma "guerra" certa de palavras...Aqui vão mais alguns exemplos de pedir e chorar por mais...Uma adoptou daqui um gato doente, cego em Roma e foi de férias para Itália, aproveitando a viagem para visitar esse animal adoptado...Outra adoptou uma galinha duma quinta biológica e acabou por levar para casa com jardim, uma dessas galinhas como animal doméstico, junto com o dito cão peludo...Uma figura mediática do Jetset da TV comercial da NL, irritante, loura, posou para a revista Playboy local para ajudar a sua fundaçào de cães num país do leste pobre que adopta, acolhe e cuida de cães rafeiros, de rua, que comem dos baldes do lixo...até chorou "live" vendo "os tristes cãezinhos" comendo dessa "forma indigna"...Esta irritante senhora esqueceu-se das milhares de crianças que tb comem dos baldes do lixo e que sobrevivem menos a esse tipo de alimentaçào do que os ditos caninos, que são de origem selvagem, e certamente sobreviveriam se os deixarem comer à vontade dos restos no lixo...
Às vezes passo-me com este tipo de gente, que parece que não sabe o que fazer mais de útil na vida...

saltapocinhas disse...

pobres cães, que não são nada felizes ao serem tratados como gente!

cereja disse...

No fundo, todos vocês de modos diferentes disseram aquilo que penso. Eu gosto de animais. Mas gosto deles tal como são - ANIMAIS. E é como tal que devem ser tratados, para mim serão tão infelizes sendo tratados como pessoas como sendo maltratados.
E a velha frase «quanto mais conheço as pessoas mais gosto de animais» é de gente que de facto NÃO GOSTA de pessoas.
Porque as pessoas são diferentes, e há gente boa, má, mediocre, não se gosta de TODAS as pessoas, mas é estranho não se gostar de ninguém e preferir animais...