Este ponto é um dos mais vistoso e aquele que toda a gente conhece, mas nunca é demais relembrar. Quando hoje, com toda a naturalidade, na fila do autocarro, ou na caixa do supermercado, ou até apreciando um objecto numa montra, se tem um desabafo com um desconhecido qualquer “Isto está cada vez pior!”, ou “Nem sei onde vamos parar”, esquecemos até que ponto essa franqueza era inadmissível antes do 25 de Abril. Não só com um desconhecido como eu agora escrevi, mas até mesmo uma conversa entre dois amigos, uma troca de opinião pessoal e em voz baixa, podia ser ouvida e denunciada à polícia política. Todo o cuidado era pouco, porque por todo o lado estavam “os olhos e ouvidos do rei”. E algumas palavras ditas distraidamente, um desabafo descuidado e sem qualquer intenção, podia ser o início de um calvário que não se sabia qual o fim. A verdade é que mesmo que a pessoa não fizesse mais nada senão protestar, isso era já um delito. Poderia muito bem, por exemplo, por isso mesmo perder o seu emprego.
Comentário
Esta falta de liberdade de expressão, para nós parece ter pouco valor. Assim como alguém que esteja rodeado de água não concebe o que é ter-se sede. Hoje damos valor a outras coisas que são muito importantes é claro, porque como dizia o Sérgio Godinho «só há liberdade a sério, quando…» Mas naquela época era… liberdade nenhuma! Eu vivi nessa época, e testemunho a asfixia que quem não era do regímen sentia. Um sufoco. Hoje dia podiam pensar que andávamos com delírio de perseguição, mas só que não era nenhum delírio, era a realidade.
Maria
4 comentários:
Pois é Emiéle e Maria, difícil fazer entender a quem por isso não passou. Era nos transportes, nas barbearias, nos cafés, em casa, um sufoco! Lembrar, faz bem, não podemos deixar que nos "apaguem a memória".
Quando, entre amigos, diziamos uma 'graça' - por mais inocente e espontânea - havia sempre alguém que te tocava discretamente com o cotovelo.
Era o aviso, era a 'censura', a auto-censura, a outro-censura. Porque nesse tempo sabíamos que até as paredes tinham ouvidos.
Este teu lugar "24 de Abril" faz todo o sentido para a gente. É um monumento. Num lugar algures, numa praia distante, onde regresso e vejo como o mar desfez o cabo que nos tolhia a vida.
Quem irá acreditar que nesta praia havia um cabo, agora que é plana e grande e se estende até ao horizonte?!
Acabei de ouvir o programa do António Barreto, na 1, e agora sinto que oiço o eco. Ainda bem.
A Maria tem toda a razão, assim como o Zé. Só se reconhece esse sentir quem o viveu!
Tens razão, Inês, o olhar que se trocava, o toque no braço, o olhar para a mesa do lado no café, na loja, na banca dos jornais. E óbviamente, no nosso emprego!
Claro que isto (estes posts) são 'apontamentos' de uma época.
Porque considero um dever, não deixar esquecer enquanto quem viveu nestes tempos estiver vivo!
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