domingo, abril 15, 2007

24 de Abril - Canções

Como as outras manifestações artísticas de que já se falou, também as canções tinham os seus cantores malditos. Ainda antes das baladas e canções de Zeca Afonso e tantos outros ‘cantores da resistência’, as pessoas cantavam canções de Lopes Graça, por exemplo, quando se queriam sentir unidas e desabafar manifestando a sua revolta, mas em surdina e sentindo que estavam a cometer um acto ilícito e provocatório.
Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada
ao sol desta canção.

Assim nos diziam Lopes Graça e José Gomes Ferreira

Comentário: (roubado à Inês)

a 20 escudos «...a cumplicidade por inacção ou por omissão é quase tão grave como a dos cúmplices directos. Esta questão colocou-se-nos claramente, aos músicos resistentes ao fascismo, logo a seguir à breve "primavera marcelista" de 70-71, quando o governo passou a impor a censura prévia aos discos de canções (que até então só eram censurados após a edição, tal como os livros e outras publicações não periódicas). Que fazer?, discutíamos. O meu segundo álbum de canções, de parceria com o escritor Álvaro Guerra, Crónica, de 1972, nunca foi publicado porque eu não admiti os cortes que a censura lhe fez. E, como sabíamos "como se faz um disco", decidimos passar a fazer (também) discos clandestinos ou marginais. Foi o caso da Ronda do Soldadinho , de que conseguimos meter 2 ou 3 mil exemplares em Portugal, que se venderam a 20 escudos por baixo das mesas de café. Assim se tentou, mal que bem, assegurar a função social das canções em disco
excerto de
O SILÊNCIO ENSURDECEDOR DOSJORNALISTAS PORTUGUESES de José Mário Branco (sublinhados da Inês)

5 comentários:

josé palmeiro disse...

Todo o valor, interesse e todos os adjectivos que possamos aplicar, estão na razão inversa do porquê, ainda hoje, esse tipo de música e, essencialmente, as palavras, ianda hoje serem difíceis de ouvir, quando não totalmente silenciadas.

cereja disse...

Hoje acham que são ritmos que passaram «de moda» e textos que «já não fazem sentido». Parece terem perdido por dois lados...
A não ser os «resistentes» como nós que insistimos em lembrar.

Anónimo disse...

Mais uma vez parabéns ás duas - Emiéle e Inês. Neste caso por a Inês ter descoberto esta citação.

cereja disse...

A Inês é excelente e o seu blog muito discreto, o que até é pena. Ela tem muito que contar!

Anónimo disse...

É mesmo isso. E boa ideia «acoplares» a Inês-Teacher. Também gosto muito de a ler apesar de escrever muito poucochinho.