Ora bem, vou continuar a pensar um pouco nesta coisa dos malefícios e benefícios da tv e já agora vamos falar de bons e maus exemplos.
Disse ontem, à laia de provocação, que o televisor é um electrodoméstico. Claro que tem as suas diferenças do fogão, microondas, máquina de lavar, mas para mim considero que só nos fazia bem se o usássemos como qualquer destes. Acendemos o fogão quando queremos cozinhar ou liga-se a máquina se há roupa para lavar. Depois apaga-se/desliga-se. Também se devia ligar o televisor quando há alguma coisa de interesse para se ver. Acabado isso, voltamos a interessar-nos por todo o mundo à nossa volta.
Mas sabe-se que assim não é. Esse aparelho ocupa hoje o lugar ancestral da lareira, é em seu redor que nos sentamos, é em função dele que se dispõem os sofás, é a peça fundamental de uma casa. Quando acaba um programa que nos interessa, não se desliga, começa-se a fase do zaping, procurando desesperadamente algo que nos entretenha e maldizendo a nossa sorte quando não se encontra nada de jeito!
Aquele monstro é de facto um eficiente bloqueador de conversas e, se está ligado quando há visitas, chega-se ao cúmulo de se estar a olhar para lá em vez de conversar com os nossos amigos! Este é o modelo. Dos adultos.
Agora transponham isto para a cabecinha em desenvolvimento de uma criança. Esse biberon electrónico, não implica o menor esforço, basta olhar e tudo vem até nós. Ora exactamente por isso não há a menor interacção, não há partilha, não existe «o outro». O movimento faz-se num sentido só, do ecrã para o observador.
Mas a infância é quando se aprende a viver em sociedade. Onde se descobre que há outros seres semelhantes a nós, com vontades, com quereres, com desejos, que podemos amar ou detestar, que nos podem ajudar ou prejudicar, e é com eles que vamos de ter de viver a nossa vida. E isso vai encontra-se no contacto directo com os outros, com os nossos pares.
Quando ontem critiquei a tv-babysitter foi, para além do mais, porque ela não pega ao colo, não cheira a nada, não é quente, não é macia, não dá beijinhos, não grita nem fala meiguinho. É uma máquina, e uma criança pequenina não precisa de máquinas, precisa de um adulto que sinta que cuida dela. Claro que ‘aceita’ a versão máquina se não tiver nada de melhor. E, mais grave ainda, até se pode habituar a ela. Mas fica lá uma lacuna, faltou o calor humano.
Depois, na criança já não tão pequena, vai faltar o convívio. É certo que durante o dia, na escola, esteve com meninos como ele. Mas aquilo foi na escola. Foi muito importante, tiveram recreios para brincadeiras colectivas, e aulas para trocarem experiências de conhecimentos. Mas debaixo do olho da educadora, não é? Quando é que se pode fazer asneiras por sua conta e risco? Quando se podem contar segredos aos amigos? Quando se pode imaginar uma brincadeira onde toda a nossa fantasia possa ser usada? Essa partilha, é a semente da socialização. Descobrir que o outro é do nosso clube de futebol [ou não, e afinal até é um tipo giro], ir com a amiga para o quarto ver quem é que salta mais alto em cima do colchão, brincar «aos médicos» onde se contacta com o corpo do outro ao vivo, apanhar o amigo a fazer batota no jogo que jogamos e darmos-lhe um pontapé que até vê estrelas, mas é para saber! Porque brincar é afinal ensaiar a vida que se está a começar a viver e para isso vai ter de se fazer muitas tentativas e erros.
Ora a criança, ajuizadamente sentada frente ao ecrã, não beneficia de coisa nenhuma destas. A vida aparece-lhe embrulhada em papel celofane. Ela vê, mas não toca. Podem dizer que é muito estimulada, que aprende muito. Se calhar até é estimulada demais! Vai ter de apanhar muitos estímulos visuais e auditivos ao mesmo tempo, e depois irá impacientar-se se na sua vida quotidiana o ritmo não for esse.
Bem, e aqui já nem falo na publicidade de que a tv está cheia e que eles aprendem tão bem, dirigida certeiramente a crianças, estimulando o consumo de determinados alimentos e fazendo-os cobiçar os mais sofisticados brinquedos. Mais do que um erro, isso é quase um crime.