terça-feira, outubro 23, 2007

O que é «a verdade»?

Nos tribunais americanos as testemunhas juram dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Soa bem e é uma grande mentira.
Cada um de nós diz «a sua verdade». Eles só podem prometer dizer aquilo que acreditam ser a verdade.
É o que há de mais subjectivo, a verdade.
Quando se diz com firmeza «sei muito bem, porque vi com os meus olhos», pode ser uma tolice. Eu, e todos nós, «vemos com os nossos olhos» o sol nascer a este, atravessar o céu durante o dia e ir desaparecer a oeste. É bem claro. E contudo, isso não é verdade. É a terra que está a girar, somo nós que nos movemos mesmo que isso se não veja.
O ser humano interpreta, e aquilo em que acredita é a tal realidade ‘interpretada’. E muitas vezes, analisada à luz de pressupostos que são os seus, próprios, particulares.
Jantei uma destas noites com a minha amiga Sofia que tinha passado um dia infernal.
À tarde tinha sido testemunha forçada de uma enorme zanga de um casal que, com gritos de ‘mentiroso/a’ negavam cada acusação que iam mutuamente fazendo. Cena desagradável que ela não podia mediar porque, na visão da minha amiga, se calhar os dois tinham razão. Um referia-se a 15 minutos, o outro a mais de uma hora, mas podia ser que ‘o tempo’ para um deles fosse de 15 minutos e para o outro se arrastasse por uma hora. Um acusava o outro de gritar, o que era veementemente negado porque talvez aquele tom não fosse considerado grito para quem o soltava. Um censurava o outro por ser gastador, mas as prioridades dos gastos não eram as mesmas. E por aí fora. Não se conseguia acordo porque cada um tinha «a sua verdade» e não arredava pé.
No final da tarde foi a vez da Sofia, também cansada e com problemas na sua vida, de ser acusada por uma sua amiga de ter tomado atitudes que teriam magoado a outra mas de que a Sofia nem se tinha dado conta. E, ao culpá-la de ter feito isto ou aquilo ‘ostensivamente’ (o que significa com intenção) não foi possível a análise calma desse(s) acto(s), uma vez que se parte de um juízo de intenção. Era «a verdade» da amiga da Sofia. Ela sentiu isso. Mas como poderia a Sofia provar «a sua verdade»?...
Temos de reflectir. Sabendo que a única verdade são os nossos sentimentos, é a essa luz que tudo o resto pode ser interpretado.
Simplesmente.


9 comentários:

  1. Bem.....
    Eu comecei por ler este post ( o vir à cabeça, chama a atenção) e depois fui ao resto, deixando-o para o fim.
    Dá tanto que pensar Emiéle. Quem é que não passou por momentos desses? Vermos exactamente a mesma cena e depois cada um contá-la de um modo diferente, mas com a maior sinceridade? Ir a um país e voltar com imagens opostas, conforme aquilo que se esperava, ou comparando com experiências anteriores. A «objectividade» é uma coisa muito discutível. Porque como aqui dizes nós vemos com os nossos olhos e com a nossa experiência. E essa experiência é como as impressões digitais, varia de pessoa para pessoa...

    ResponderEliminar
  2. Para mim, a tua categoria «Intimidade» é um blog dentro do blog.
    Fui agora reler os textos que tens deixado ali, para confirmar a ideia que tinha. Quando falas de coisas pessoais (e oscilas entre a piada e boa disposição e o texto muito sério), tens um registo muito diferente. Não é uma crítica, mas realmente até parece outra pessoa e não aquela que nos chama a atenção para os casos do dia a dia.
    também dá que pensar como podes ser tão diferente.
    :)

    ResponderEliminar
  3. Queria só dar os parabéns pela escolha da imagem.
    Que nem uma luva!!!

    ResponderEliminar
  4. Como diz a Gui, és mesmo diferente, mas na positiva, na forma de colocar as questões.
    A de hoje é uma verdade de La Palisse, mas é assim mesmo e não há que fugir-lhe.
    Como é bom ser diferente, mas é tão difícil.
    Contudo, vale a pena!

    ResponderEliminar
  5. «A cada um a sua verdade» não é?
    A tua postura chama-se tolerância. É algo que em demasia se torna palermice, e em falta é a causa até de guerras.
    Difícil, minha amiga!
    Porque o certo é que a «nossa verdade» tem um cunho de EVIDÊNCIA, para nós é claro.
    Pensar que o que é 'evidente' pode ter outra leitura é um exercício dificílimo. Falo por mim.
    Aliás a amiga da tua amiga Sofia deve achar isso mesmo: para ela deve ser 'evidente' a tal atitude ostensiva, de modo que nem tem de a provar. Assim como a Sofia sente que não foi nada disso, e é 'evidente' que assim não foi. Complicado.

    ResponderEliminar
  6. Eu «passeio» muito pela blogosfera e já tenho pensado que essa coisa da fama que tens de escrever muito, se bem que está certa, é um pouco exagerada porque há mais quem o faça. o que acontece é que «se espalham» por vários blogs... Vejo aí bloggers que escrevem em três ou quatro sem falar nos colectivos. E, não é bem a questão de heterónimos à medida do F. Pessoa, mas aproxima-se. E se é ironia escrevem num blog, têm outro para fotos, outro para "a política", outro para
    questões pessoais, etc...
    Tu escreves realmente muito. E sobretudo escreves todos os dias o que é importante para fidelizar a gente. Mas concentras tudo aqui.
    Isto porque estou de acordo, em que este texto - de que gostei muito! - é uma outra tua faceta.

    ResponderEliminar
  7. Que queres que te diga?Ou há muito para dizer-discussão filosófica sobre as verdades(verdade)de cada um- ou mesmo nada a dizer porque exactamente a cada um...AB

    ResponderEliminar
  8. ... a sua verdade.

    ResponderEliminar
  9. A maior verdade que eu conheço e que talvez seja a unica é que: todos nós mentimos uma ou outra ocasião.
    Gostei da sua reflexão!
    RV

    ResponderEliminar