Para mim, na nossa linguagem há muitas vezes dois pesos.
Por um lado é o significado exacto e rigoroso da palavra, por outro aquilo que, de uma forma geral, ela invoca. Sabemos que nem sempre isso coincide.
A comunicação social deve ter muito cuidado com o modo como dá as notícias, é claro. E faz muito bem em evitar «acusar» seja quem for sem o tribunal o considerar culpado. Aliás, infelizmente, sabemos que nem sempre há essa cautela, podem não acusar directamente mas basta apresentar alguns factos de um modo mais ou menos tendencioso para influenciar a opinião pública.
Mas o que me anda a fazer confusão ultimamente é quase o oposto dessa posição.
Tornou-se agora moda, usar a palavra ‘alegadamente’ por sistema quando se conta uma história de polícia.
Ora, com rigor, se a palavra ‘alegar’ significa ‘emitir razões sobre um facto’, também nos evoca a ideia de ’desculpas’ ou ’pretextos’ e a verdade é que muitas vezes é logo isso que se pensa. É correcto, se um indivíduo foi acusado, contar-se esse facto com a cautela do ’alegadamente’ - a tal ideia de que somos inocentes até se provar a culpa. Mas, com sinceridade, soa-me mal quando o ’alegadamente’ se aplica à vítima ou para ser mais rigorosa, ao queixoso (ou queixosa).
É que, nesse caso, a mensagem que nos chega, mesmo sem querer, é que aquilo que ele disse pode ser uma mentira. E até pode, mas isso ficará para depois ser provado.
A semana passada foi notícia os casos de duas raparigas que fizeram queixa de violação, mas como não havia ninguém da Medicina Legal para recolher as provas, e elas não conseguiram esperar todo o fim de semana por que esses técnicos voltassem a trabalhar, essas evidências não puderam ser recolhidas.
Contudo, nos dois casos, a notícia falava da jovem como «alegadamente violada». Havia várias maneiras de dizer aquilo sem acusar ninguém, mas a mais fácil, que me ocorre logo, era referir: «queixando-se de violação». Porque isso era um facto, a queixa. As duas raparigas tinham-se queixado, tinham mesmo até feito uma participação na polícia.
É certo que a investigação depois logo concluiria se a queixa se podia materializar numa acusação a alguém. Mas a queixa, e pelos vistos com provas que só não foram recolhidas porque os médicos disseram que não era nada com eles, essa existiu.
O «alegadamente» serviu para deitar suspeitas sobre a sinceridade das queixosas e não gostei.
